quinta-feira, 16 de outubro de 2008

a kind of afro-minina soul ou lembrança de morrer

Tem uma vizinha minha aqui no Garcia que bebia até cair, agora não pode mais, sua garganta não deixa, seu corpo já não mais responde ao ato de engolir qualquer coisa. Pela primeira vez vi placidez, calma e tranqüilidade no seu olhar. Um corpo esquálido, a garganta inchada com uma bola do lado direito, expondo o cancro que toma desde a garganta até as entranhas. O corpo indica que são seus últimos dias na terra e seu olhar. Nossa, seu olhar transmite paz. Uma paz que não via há muito no corpo daquela mulher. Seu andar é mais do que vagaroso, seus movimentos quase que são parados, sua voz já não existe, mas o olhar calmo resplandece uma inusitada alegria. Ao olhá-la sinto um arrepio fortíssimo, não simplesmente porque ela está mais perto do mistério que nos envolve a todos, mas especialmente porque seu corpo representa inúmeras dores afro-mininas acumuladas, tantas que nem sei.

Mulher negra, pobre, mãe desempregada, solitária, sem dinheiro pra comprar remédios, precisando de todo o tipo de afeto, talvez o que nunca teve desde a sua chegada a esse lugar onde vivemos. Os antigos daqui dizem que teve uma vida boa, tinha um trabalho bom, ganhava bem, mas que um feitiço fez ela entrar em decadência e, a partir daí, começou a beber até se liberar da realidade. Diariamente seu café da manhã era no mercadinho do Largo — 51 com goiabada. Até o início desse ano, Ana Amélia, esse é o seu nome, andava cambaleante e cabisbaixa. Mas agora não, ao andar trôpega, ergue a cabeça, mostrando a todos seu olhar sereno e sua bola de células anárquicas no pescoço. A vagareza do corpo não combina com o brilho do seu olhar.

Pensando bem... Combina sim. Talvez esse sempre tenha sido o desejo profundo desse corpo que hoje, hoje sim se mostra inteiro: parar. tornar-se imóvel. jamais sentir dor. jamais doer. jamais...

Série BLUES (Poster El vuelo del alma - Keith Mallet)

7 comentários:

:: Soul Sista :: disse...

Kátia (Webneguinha). Obrigada pelo afro-menina. Transformei em afro-minina, viu? rsrsrsr E vamos que vamos... Bjs

Katia disse...

Dona Lima, meu auzaimer nao me deixa lembrar de nenhuma afro-me ou mi nina, portanto, fico com a sua, que me cortou o já combalido coração.

Abraços and keep up the good work!

Sueli Borges disse...

Fá, este texto me comoveu!
bjs

:: Soul Sista :: disse...

katia, o auzimer anda sério mesmo. rsrsrsr Mas tudo bem, o que valeu foi a sugestão, quando vc, num de seus ataques criativos, leu "afro-menina" ao invés de "afro-feminina", como estava no texto. Só pra te situar: foi na sala de meu pai, quando conversávamos, numa manhã de domingo sobre textos, blogs e vidas de mulheres pretas. Ai ai. Nem vou perguntar se lembrou.... (rsrs)

:: Soul Sista :: disse...

Su, mais do que o texto, a realidade é, em si, perversa e comovente. Poucas, pouquíssimas saídas para tantos infortúnios acumulados. Beijos

Alvaro disse...

Fabiana, gostaria de ver em seu blog, uma artigo sobre a mulher gato, o campeão de formula I e o futuro presidente dos EUA. No início não parecia, mas 2008 acabou entrando para hostória, com diversas consquistas marcantes para a raça negra.

Anônimo disse...

Aprendi muito