segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

FICÇÃO NA REALIDADE



Resposta do cineasta Pedro Almodóvar à pergunta "Qual é a função do cinema hoje"? para Revista Época. Entrevista completa em Época.

Almodóvar – O cinema deve completar a realidade, porque é mais importante que ela. Não que eu despreze os filmes naturalistas. Só que esse tipo de cinema não me interessa como diretor. Meu cinema é a representação artificiosa da realidade. A ficção é um fato necessário da vida. Sem ficção, as pessoas ficariam loucas. Se houvesse um dia uma greve de ficção e, por um tempo, não se produzissem mais histórias para as pessoas escaparem da realidade, haveria um caos no mundo. A ficção é necessária porque a vida das pessoas não é suficiente, a realidade é incompleta. Ainda mais em países pobres, como tantos que ainda existem. A ficção se torna para os desgraçados uma forma de sobreviver. Como artista, sinto necessidade de viver intensamente uma fantasia. E não me refiro a filmes elaborados! As telenovelas preenchem uma necessidade do público faminto de ficção.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Por que nossas avós usam talco?

Engraçado, o grande corpo de minha vó Mulata eu só lembro entre nuvens de talco. Após o banho da tarde, aquele de dormir, o quarto dela virava uma nuvem sufocante de pó! Um cheirinho bom acompanhado de muito, muito espirro. Na verdade, nunca entendi a lógica do talco e só via sentido daquela pózeira branca toda no colo enorme e aconchegante de minha vó. O cheirinho inebriante despertava em mim vontade de descansar a cabeça naqueles imensos seios. Não lembro ao certo se já descansei minha cabeça em seu colo entalcado. Acho que sim, porque minha imaginação lembra disso. Cada vez mais perco o senso do real. Onde isso vai parar?

Minha vó Mulata, nossa! Era lindíssima. Só usava lindas bolsas de couro e vestidos de marca, comprados na São João Batista Modas. Amante da boa comida, ela foi, com certeza, a principal responsável genética das mulheres G e GG da família: eu, Sandrinha e minha irmã. Sua beleza foi responsável por traçar um dos sargentos mais charmosos e galanteadores da Soterópolis daquela época. Foto dela eu não tenho agora, mas o perfil do meu avô Arnaldo está aqui em baixo, para que vocês comprovem o que digo.

Todo mundo que me conhece sabe o quanto eu tenho uma quedinha quase enlouquecedora pelos cremes hidratantes e tudo o que é cosmético que deixe minha pele amolecida e cheirosa! Pois então, este post é conseqüência do último cheirinho cosmético que tem dominado a minha vida. Foi a partir da fragrância perdida num tempo passado do Talco Cremoso Antisséptico Granado (linha Pink) que eu me lembrei da pózeira branca na pele negra da minha linda vó Mulata.


Cheguei a esse talco em creme, a partir da dica de minha amiga de trocar futilidades boas Lulu Magnética, que sabe de todos os lançamentos em cosméticos no Brasil e fora dele, das marcas mais populares às incompráveis. A Av. Sete de fora a fora é vasculhada por ela. Depois passa para as amigas todos os novos produtos e a drogaria ou biboca onde comprar. Sempre aprendo muito sobre beleza com ela! Inlcusive, prometo fazer um post só com cuidados com os nossos cabelos crespos, já que há pouquíssimos produtos na praça para cabelos sem química, mas que precisam de muito cuidado para ficarem macios, agradáveis ao toque. Isso é possível, Lulu sabe e agora eu também sei!

Mas voltando ao talco, jamais usaria em pó, pois como disse não me entendo com esse formato. Por isso, já achei curioso ele ser um talco cremoso. Fiquei com aquilo na cabeça. Nas idas ao Rio, sempre me dou um dia de caça-cosméticos, geralmente mais baratos do que aqui em Salvador. Dessa vez, estava decidida a comprar a Manteiga Corporal de Castanha da Granado, que já estava namorando há meses.

Na drogaria, vi toda a linha Pink. Tive muita vontade de comprar, mas me contive. Resolvi trazer só o talco em creme, porque no verso dele estava a promessa de combater a transpiração e as bactérias causadoras do mau cheiro, além de inibir o crescimento do fungo trichophyton mentagrophytes, um dos causadores das micoses. Próprio para aplicar nas axilas e nos pés.

Nossa! Que grata surpresa! Tenho a pele das axilas bem sensível, além de suar muito. Daí já viram! Uso o Talco Cremoso há duas semanas e, até agora, ele tem se saído melhor que qualquer desodorante, seja em creme, roll-on, anti-perspirante ou natural que tenha usado antes. Além do cheirinho mortal de tão bom! À noite, passo não só nas axilas, como em todo o colo, para dormir com cheirinho de vó. Daí para lembrar da pózeira no quarto de D. Mulata foi um pulo, né?

Amei tanto o cheirinho que esta semana comprei quase todos os outros produtos da linha: Gel para pés e pernas cansadas; Esfoliante de pedra pomes; Manteiga emoliente e o Sachet escalda-pés. Só falta a Cera nutritiva para unhas e cutículas que não achei de jeito nenhum aqui em Salvador! Minha diversão da última semana tem sido tratar dos pés. Encho minha enorme bacia de alumínio com água morna, coloco o sachet com aquele cheiro maravilhoso e fico pensando na vida... Muito bom! Depois complemento com a esfoliação, o gel e a manteiga, para dormir com os pés hidratadinhos!

Nessa terapia corporal me reencontrei com o enorme corpo de minha avó Mulata e com a certeza de que vó que não usa talco não tem graça nenhuma! Bom, meus netos não terão o pó, isso é certo, mas poderão ter o agradável perfume desse talco cremoso se até lá a Granado existir e esse produto não sair de linha!

Meu kit caseiro Granado

Ah, para terminar, eu juro que não sou garota-propaganda da Granado. É que o cheirinho da linha PINK, além das lindas embalagens vintage em rosa têm levantado mesmo o meu astral esta semana!

Abraços apertadinhos em tod@s!

domingo, 29 de novembro de 2009

Aqui não é twitter não

Mas a frase para o dia de hoje é

EU NÃO VIM PRETA À TOA.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Tais de joelhos no horário nobre e semana da consciência negra

Terça-feira, 17/11/2009, 21:30, o telefone toca. Eu, irritada. Horário da novela. Meus amigos e amigas intelectuais não entendem meu vício! Atendo e tomo um susto: uma amiga do Rio que pouco me liga. Estranhei. Pensei logo em desgraça. Eu, olho vidrado na televisão vendo uma culpa absurda encarnada no personagem de Taís Araújo, e minha amiga dizendo:"Menina, viu que horror a cena da novela? Estava falando com A.. Que absurdo!". Eu só me limitei a dizer: "Querida C., Salvador não tem horário de verão. Estou vendo a cena agora. Ela vai se ajoelhar mesmo?. C. só se limitou a dizer: vai lá ver, vai lá ver...". Desligamos.

Cena típica de uma noveleira convicta. Sou daquelas que irritam os amigos quando, dependendo do capítulo, evito sair antes de a novela acabar. Daquelas que sempre promete que não irá acompanhar mais nenhuma novela, mas quando outra começa (na verdade, quase sempre a mesma novela com outra roupagem), acaba acompanhando. Daquelas que, mesmo irritada com o escritor (porque discuto muito com elas e eles), quase sempre, sigo vendo a novela.

Obviamente, aquele mundo não tem nada a ver com o meu, os valores e visões de mundo são, de uma maneira geral, deploráveis, mas gosto de estórias infindáveis e a novela é antes de tudo uma contação sem fim. Relaxo mesmo vendo os absurdos que desfilam na televisão brasileira, sobretudo os das Organizações Globo. Gosto de uns autores, desgosto de outros, mas só deixo de ver mesmo a novela muito mal construída. Agora, o que tenho sentido ao ver cenas de VIVER A VIDA de Manoel Carlos tem sido uma miscelânia de raiva e indignação.

De fato, as novelas desse senhor sempre me irritaram, com um mundo tão amplo quanto os limites do Leblon. Lamentável o cotidiano daquele bairro naturalizado como se fosse o único do Brasil. As empregadas negras, puxa-sacos dos patrões, chatas e, geralmente, gostosas nos seus micro-uniformes azuis, rosas ou salmões (nada contra micro-vestidos, pelo amor de Deus!). Aquela velha representação da preta doméstica boa de cama! A Zilda por exemplo , personagem de Laços de Família, feita pela linda Thalma de Freitas, tinha esse perfil deplorável e ainda gritava diariamente com uma voz de gasguita "Dona Heleeeena"!

Tudo bem que ele não é o único a construir essa típica representação na teledramaturgia brasileira, como bem já demonstrou Joel Zito no livro e documentário A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. Porém, entre os autores de novela recentes, me parece ser o pior.

Por outro lado, ao construir uma protagonista negra, Maneco tem feito um grande favor a nós que vivemos e procuramos pensar sobre a desigualdade racial no Brasil. As tensões raciais em circulação no nosso país, ao invés de amenizadas, como bem desejaria o porta-voz do Leblon, têm sido marcadas pela super-exposição. Encenada como um grande avanço dramatúrgico, as cenas traem um Brasil inventado como racialmente harmônico, através de uma protagonista negra adestrada pelo embranquecimento. Tendo crescido em uma família negra de classe média, com pai músico, bon vivant e mãe ultra-conservadora, dona de pousada, a protagonista, porém, mostra-se carente de referenciais negros, cercada de amigos não-negros, com certeza, segundo a crença de Maneco, devido ao meio social em que vive.

A infelicidade da cena transmitida no início da semana do 20 de novembro revela índices de violência racial incessantemente (re)encenados na teledramaturgia brasileira. Pior agora, porque travestido na emoção de uma atriz vista como aquela que abre portas para o negro na televisão brasileira. Primeiro, ainda adolescente protagonizou a novela Chica da Silva; depois, foi a primeira protagonista negra da Globo em Da cor do pecado; agora, a primeira protagonista da produção mais cara da mesma emissora.


O pedido de desculpas de Tais Araújo/Helena, ajoelhada diante dos olhos claros de Lília Cabral/Tereza, representa um lugar - o da subserviência - obsessivamente ocupado por personagens e atores negros na televisão brasileira. A cena me pareceu a volta imaginária de tantas sinhazinhas, mucamas, mulheres escravizadas que desfilam nas telenovelas. No momento da cena, não dava para pensar só no enredo da novela e na tragédia vivida pela heroína negra de Maneco. A encarnação cristã da culpa fez a personagem dizer que prefiria ser ela a estar sem os movimentos das pernas e dos braços. O resultado por tamanha submissão (como sempre disse minha mãe: "quem muito se abaixa..."), foi uma bofetada na cara e o ódio da personagem cujas características físicas demonstram um lugar de domínio.

Agora, tão violento quanto a posição de Helena e o tapa recebido é o desolamento vivido pela personagem. A família, morando em Búzios, não se abala pelo drama vivido pela grande modelo internacional, com certeza o motivo de orgulho da família. Até mesmo a mãe de Helena, destoando das representações de mães-leoa de Maneco, limita-se a rezar para o santo de devoção e esperar a visita da filha em casa. Mesmo tendo familiares, a protagonista negra continua como outros personagens negros de telenovelas: sem família, desgarrados. A culpa encarnada por Helena também parece supervalorizada, já que, provavelmente, segundo o perfil da personagem, ela deve ter encarado barras pesadíssimas para se tornar a modelo brasileira de maior sucesso, segundo o texto da novela.

Enfim, uma seqüência de desastres narrativos têm construído uma das protagonistas mais inverossímeis da teledramaturgia brasileira. A única coisa boa nesse mar de inadequações é que nós, telespectadoras negras, podemos, a partir do desfile de atrocidades da novela, aprofundar uma reflexão sobre as danosas conseqüências do racismo em nossa sociedade.

A cena construída por Maneco para ser transmitida em plena semana da consciência negra me fez perder de vez a vontade de acompanhar a novela. Meus amigos intelectuais, durante os próximos 4, 5 meses talvez, poderão me ligar entre as nove e dez horas da noite à vontade!



Quem quiser ler uma interessante reflexão sobre a mesma cena da novela, acessar A Globo e seu TOC (ou a remasterização obsessiva das representações desqualificantes)