domingo, 5 de abril de 2009

NÃO CHOREM POR JÔNATAS CONCEIÇÃO

(1952-2009)

Em homenagem ao poeta, professor, radialista e ativista, dois poemas de sua lavra e o emocionado e lúcido texto de Simone de Jesus Santos (Mestranda do Programa de Estudos Étnicos e Africanos - UFBA), cujo título peguei emprestado para nomear esta postagem-memorial, dedicada à infinitude de todo lutador de palavras.

A PEQUENA CEIA
(fragmento final)

Dona Magnólia de Araújo,
sinto-me solidário com o teu ofício de badameira.
A tua arte e sabedoria
de sobreviver à custa do lixo
dão-me força para continuar,
solitário, à cata de palavras que
quisera fartas, purificadoras e anunciadoras
dum porvir de
mel
luzes
boas merluzas e dignidades para todos.

- Uma farta e perene Ceia, Dona Magnólia!

(Cadernos Negros, 29)

JOÃO SALDANHA

A sanha dos opressores de plantão
não pôde calar o teu verbo.
Foste sempre o dono da bola
desde que saíste de Pelotas
para encher de fantasia
tanto o torcedor da geral como o intelectual.

Este poema que queria redondo
vai aqui com versos quebrados
branco querido, que soube como ninguém
traduzir a arte dos pés negros
e elevá-la ao Olimpo dos mais humildes.

Caro poeta da oralidade
pelas ondas do rádio, o esporte bretão
invadiu a área do nosso coração
com o vigor e a sabedoria de sua arte de comentar
homens e bola em apenas quatro linhas.

(Cadernos Negros, 29)

Não chorem por Oliveira. Os escritores não morrem... assim disse o velho militante Jônatas Conceição em homenagem ao poeta Oliveira Silveira, na edição nº 24 do jornal Irohin.


A mensagem deixada por Jônatas não cessa a tristeza diante de nossa irreparável perda, entretanto, contribui para as lutas de todos os afrobrasileiros. Sua caminhada de militante, poeta, professor e diretor do bloco Ilê Aiyê não termina no dia 02/04/2009 porque a sua escrita há de ser perene. Para além dos Quilombos Contemporâneos dos quais participou, pode ser pensada a sua vivência de afrobrasileiro.


Quem o conheceu sabe que fez de suas marcas caminhos um Quilombo de palavras: afrodescendência, Literatura Negra, Movimento Negro, são alguns vocábulos constantes no seu discurso. No mesmo perfil de força, calma e doçura integram o jeito tranqüilo daquele a quem disse ser “poeta da memória”.


Para Jônatas, a sua geração de 1970 é significativa no processo de construção de uma sociedade mais democrática para os afro-brasileiros.O seu empenho é um importante legado em nossos dias. Seu trabalho vivo fortalece as identidades afrobrasileiras e coincide com o propósito de Zumbi[...] Senhor dos caminhos: liberdade, liberdade, liberdade. Com essa imagem que Jônatas nos transmitiu, no último 02/04, tornou-se eterno porque os escritores não morrem.





Um comentário:

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Esse último um ano e meio tem sido de muitas perdas para o movimento negro brasileiro: Luiz Orlando (Salvador), Oliveria Silveira (Porto Alegre), Penha (São Paulo), Neusa Santos (Rio de Janeiro) e agora Jônatas Conceição (Salvador). O conheci muito rapidamente em 2001 durante um SBPC ocorrido em Salvador, mas sei de sua importância histórica dentro do movimento negro.

Que nosso brother descanse em paz agora que adentrou o panteão dos militantes afro-brasileiros que se foram!

Muita paz!