Então, gente! Tive que me segurar para não publicar uma postagem inteira só com falas de irmãs e irmãos de alma. Há momentos em que a história arrebenta e explode dentro de nós uma série de vozes, como se nossas fossem. Nesses momentos, todas são uma só e a nossa própria voz se dilui num eco coletivo. Há momentos que falamos em coro, por isso hoje não estou aqui sozinha. Falo em rede, tal qual as sociedades de onde vieram meus antepassados africanos. Peço licença então para, daqui por diante, falar a minha voz misturada com outras, quase tudo sem aspas, porque neste longo feriado que agora festejamos, re-atualizamos recorrentemente o sentimento de sermos milhares, espalhados e unidos, diferentes e iguais.
Para mim, começou intimista esse nosso novembro negro. Mês do grande feriado conquistado quilombolamente: rememorar Zumbi (nosso único presidente negro até então), rever e inaugurar estratégias de luta, tanto em termos individuais quanto coletivos, tanto no nível existencial quanto no social mais amplo. Esse sim é o feriado pra gente! Verdadeiramente cheio de significado libertador. Um gesto ritual por nós criado, para que jamais esqueçamos que há uma tradição africana no Brasil, perpassada pela resistência, por uma alegria melancólica e também pela dor. Uma rememoração destinada a impulsionar uma história construída sob parâmetros da nossa gente, da nossa marca aqui nessa estranha terra (nossa?).
Este ano, entrei no clima do novembro negro ainda na última semana de outubro, quando chegou a minhas mãos uma pérola negra: o filme Orí, com textos de Beatriz Nascimento. Difícil falar sobre esse filme, dificílimo mesmo, porque suas imagens dizem, antes de tudo, eroticamente, depois sim no intelecto. Ou melhor, fulgurantes reflexões críticas provêm de distintas sensações corpóreas, a partir da visão de um Atlântico múltiplo, que nos liga a todos, africano-diaspóricos. Ao se arrepiar e se deslumbrar com rituais de candomblé. Ao se regozijar com belíssimos corpos negros dançando em bailes soul ou desfilando em concursos de beleza. Ao vibrar com homens e mulheres reverberando palavras de ordem ou fazendo falas emocionadas em encontros, congressos, festivais de cultura e luta política afro-negra. Ao se libertar, quando acompanhamos uma mulher nascer, liberando-se de antigas imagens e se enegrecendo no corpo e na mentalidade. Essa mulher recria, em sua própria trajetória de vida, o sentido pleno de Orí, pois renasce com uma cabeça renovada e acaba por fazer do próprio filme um rito de passagem, um espaço de iniciação.
Como o próprio nome indica, tudo ali é tomado de uma dimensão sagrada. Dentro dessa concepção, a luta de inúmeros militantes insere-se no âmbito da luta do ser humano, acima de tudo, por reconhecimento e por melhores condições de vida. Lamentável que, para muitos brasileiros, a causa anti-racista seja vista como algo destinado à mera criação de guetos ou mesmo como uma disputa para que se consigam privilégios! Nossas perdas e dores são tantas, em tantos e diversos níveis, estendendo-se por séculos, que se torna impossível falar de privilégios. Mas hoje não quero perder tempo com os que não entendem a dimensão humana da luta cotidiana, política, por representação e dignidade do meu povo. Hoje meu grito coletivo é palavra em festa, para comemorar o nosso novembro negro.
Ao vermos as belíssimas imagens de Orí, nos questionamos sobre inúmeras questões. Que Atlântico é esse? Como nosso corpo negro se insere nisso tudo? Como nos colocarmos em luta, inteiras? Há ali muito sofrimento também, porque nossa história é de profundas contradições mesmo. Sobretudo o questionamento do que fazemos com nossos corpos. Muitos dos ativistas e militantes que aparecem lá já se foram, pelos menos, dois deles (Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton Cardoso), por suicídio. Daí nos perguntamos: como fazer nosso corpo lutar, mas não adoecer? Manter-se em luta cotidiana, mas ter espaço para o prazer: dançar, amar, cantar ou fazer qualquer coisa que dê prazer ao nosso corpo. Isso tudo faz parte de Orí.
Um filme que mostra o quanto devemos a gerações negras que lutaram no passado e o quanto de estratégias de luta temos. É por isso que a simbologia do quilombo está presente o tempo todo nas imagens e nas frestas das palavras narradas por Beatriz. Não é à toa que as últimas palavras do filme, aliás, de um lirismo quilombola único, colocam no centro Zumbi, como figura real e mítica de resistência e libertação: “Para ti, comandante das armas de Palmares, filho, irmão e pai de uma nação. O que nos deste? Uma lenda, uma história ou um destino? Ó rei de Angola Jaga, último guerreiro palmar, eu te vi, Zumbi, nos passos e nas migrações diversas dos teus descendentes, te vi adolescente, sem cabeça e sem rosto, nos livros de história, eu te vejo mulher em busca do meu eu, te verei vagando, ó estrela negra, ó luz que ainda não irrompeu, eu te tenho no meu coração, na minha palma da mão, verde, como palmar. Eu te espero na minha esperança, no tempo que há de vir...”
Pois é, ao ruminar as imagens ritualísticas do filme, iniciou-se o novembro. De cara, a vitória dramática de Lewis Hamilton justamente aqui no Brasil. Na última volta, o afro-inglês consegue ganhar o campeonato de F1. Não que tenha visto a corrida. Longe de mim! Seria demais, já que não vejo sentido algum em ver carros correndo loucos numa pista em forma de serpente com rabo e cabeça unidos. Mas amigos pretos falaram-me exultantes do sentimento de ver Hamilton ganhar nos últimos segundos da disputa. A mim, importa pensar que rede é essa que liga africanos de várias nações distintas em torno de um jovem afro-herói da velocidade, do poderoso mundo da F1. Para além de fronteiras culturais ou nacionais, há uma memória étnico-racial que nos constitui e nos liga. Muita discussão teórica sobre essa ligação tem sido feita, desde quando africanos foram transportados à força para terras americanas, sobretudo durante os dois últimos séculos. Contudo importa aqui a constatação de que ela é fato, na vida de muitos africano-descendentes espalhados por toda a diáspora. Na minha vida, ela é determinante. Na visão dos meus amigos afro-mininos, vidrados na corrida de carros milionários, havia algo ainda mais libertador: Hamilton ganhar logo aqui em nossa terra racista.
Essa vitória no joguinho de autorama (segundo a minha perspectiva, é claro) foi só o prenúncio de outra muito mais significativa que ainda viria. Na verdade, uma conquista que já vinha se anunciando nos últimos meses, num processo eleitoral jamais visto na América poderosa do norte. A maneira como aquele presidenciável afro-diaspórico foi ganhando força, do início do ano pra cá, mudou a perspectiva das eleições de lá, acabando por fazer explodir uma festa política e racial de enormes proporções, dentro e fora daquele país.
Eu aqui, amefricana do sul, recebi, num crescendo, a campanha de OBAMA. No início, não só desconfiada do feliz desfecho, como certa de que aquela vitória pouco me afetaria. Nos momentos finais, já conhecendo mais a biografia do presidenciável e querendo mesmo que aquela família negra ocupasse a Casa Branca, me via, às vezes, vibrando em frente à TV, ao ver a dianteira dele nas pesquisas pré-eleitorais. Agora, a madrugada de 4 para 5 de novembro ultrapassou o imaginável. A excitação de ver cada vez mais perto a possibilidade da vitória, aquela sim, plena de sentido pra mim, fazia meu olhar circular freneticamente entre dois écrãs (o da TV e o do computador), tentando achar notícias saídas do forno e saber logo se os números davam, enfim, a certeza da nossa vitória. Digo nossa, porque, àquela altura, o presidente negro de lá era também meu de alguma forma.

Final da noite, McCain discursa assumindo a própria derrota. A platéia vaiava Obama e eu vaiava aqueles idiotas comprometidos com os tranqüilos mesmos de tudo, com a continuidade da barbárie. Pelo que me lembro, entre 1:30 e 2:00 da manhã, OBAMA inicia o discurso da vitória. Eu, do lado de cá, mesmo sem ser vista por ninguém, chorava silenciosamente lembrando outros quilombolas, de lá, de cá e de outras partes, que passaram pelo mundo brincando de ser deuses, espalhando, muitas vezes através da própria morte, a possibilidade de transformações reais na vida de negro-africanos da África e de fora daquele continente. Chorava por estranhamente me ver nas três lindas mulheres pretas da família de OBAMA. Chorava baixinho, quase que um choro escondido de mim mesma.
Embora não acredite em mudanças radicais na política dos EUA, principalmente em termos de política externa, e saiba o quanto de espetacularização há nessa imagem pública multicultural de OBAMA; sem dúvida, a carga simbólica presente no fato de um afro-diaspórico ocupar o cargo mais importante da potência mundial de agora é indubitável. Entre nós, amefricanos do sul, a atitude quilombola ganha nova força. Nossa contenda continua! Que venha uma mulher ou homem africano-descendente para ocupar o mesmo cargo aqui. Apesar de certa tradição brasileira construir-se a partir de uma falsa idéia de harmonia racial, propagada, principalmente, por nossa mídia televisiva, o presidente negro de lá se torna, alegoricamente, uma espécie de prenúncio a um novo Zumbi, já que, o poder mítico do líder palmar acaba por se dinamizar em um duplo caminho: constrói um passado liberador e, por outro lado, cria um destino quilombola que se expande em direção a um futuro.
Se o espírito deste texto é uma rede de vozes afros transmigradas, termino como iniciei, em coro. Atormentada como sou, fiquei a me perguntar por que não me permiti chorar alto e esbravejar a emoção que sentia naquela madrugada sagrada. Lembro-me bem que, depois do discurso da vitória, circulei pela internet, assistindo a antigos discursos do democrata, lendo notícias sobre a campanha eleitoral e, nas brechas, respondendo a emails atrasados, por isso só me dei conta de que o tempo tinha passado, quando, sem querer, olhei o relógio do computador marcando 5:03 da manhã. Virei então para a janela: a posição do sol anunciava o dia. Literalmente, OBAMA e sua linda família de afro-mininas como eu foram a minha madrugada. Ao ler, dois dias depois, o parágrafo do escritor angolano Manuel Rui, com que termino agora este texto, desatei a chorar alto, soluçando. Foi quando me lembrei de algo que há muito tinha esquecido: existe um soluçar incontrolável de alegria, uma alegria melancólica, é verdade, já que parte da lembrança de inumeráveis violências acumuladas, mas , ainda assim, só pode ser chamada de alegria.
“Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.”

(1ª foto - Beatriz Nascimento; 2ª foto - Obama e a sua avó paterna; 3ª foto - família de Michelle e Obama)