
Ainda esta semana, na segunda-feira, conversava sobre o livro "Ensaio sobre a Cegueira" com a especialíssima Betsy, minha tutora de inglês. Falo dela em detalhes num outro momento, mas só digo por ora que quero envelhecer como ela, cozinhando saborosas comidas, amando o marido psiquiatra (o meu pode ser pintor de paredes, grafiteiro mesmo - rs) e freqüentando clubes de leitura com amigas de muitos anos, como ela me conta. Foi a partir desses encontros para discutir livros que ela leu o romance "Ensaio sobre a cegueira", praticamente um mito pós-moderno do escritor português José Saramago. Para ela o livro é tomado de pessimismo, já para mim soa mais como um aviso mesmo, porque de certa forma estamos todos cegos mesmo.
Não é que poucos dias depois dessa interessante conversa sobre o autor, recebo a notícia de sua partida. Morreu em casa mesmo, aos 87 anos. Com certeza, foi uma morte tranqüila (se é que isso possível). Dele para mim, além das fulgurantes histórias, ficará a possibilidade de se ser questionador até o fim, de se usar a escrita para construir filosóficas parábolas deste mundo.
Li poucos livros do autor, mas os que li foram num fôlego só, assim sem conseguir parar. Seu poema "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" é magnífico. Ao fazer um fictício personagem de "Os Lusíadas" dar notícias da terra para um real herói do século XX, Saramago brinca com a tradição e mostra, em distanciamento, o que temos feito conosco e com o mundo onde circulamos.
Não é que poucos dias depois dessa interessante conversa sobre o autor, recebo a notícia de sua partida. Morreu em casa mesmo, aos 87 anos. Com certeza, foi uma morte tranqüila (se é que isso possível). Dele para mim, além das fulgurantes histórias, ficará a possibilidade de se ser questionador até o fim, de se usar a escrita para construir filosóficas parábolas deste mundo.
Li poucos livros do autor, mas os que li foram num fôlego só, assim sem conseguir parar. Seu poema "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" é magnífico. Ao fazer um fictício personagem de "Os Lusíadas" dar notícias da terra para um real herói do século XX, Saramago brinca com a tradição e mostra, em distanciamento, o que temos feito conosco e com o mundo onde circulamos.
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
Há anos não me sai da cabeça as reflexões do escritor no documentário "Janela da Alma". Uma estrutura social capitalista, que tem nos transformado de cidadãos em clientes, é o que Saramago compreendia como cegueira. Para ele, o dito popular "O maior cego é aquele que não quer ver" é coisa séria, porque o problema da desigualdade social mundial, por exemplo, só será resolvido quando os humanos tiverem coragem de ver os mecanismos de produção que têm nos transformados em os que lucram, os que compram e os desgraçados, que vivem no limbo.
Separei do documentário, para mim, a cena mais melancólica, em que ao anoitecer de uma avenida norte-americana, tomada de letreiros e faróis de carro, a voz de Saramago narra um texto em que mostra como as luzes das grandes cidades são cavernas que nos impedem de ver a "verdadeira" luz. Soa platônico? Pode ser, mas o platonismo de Saramago, longe de querer uma ordenada República, deseja mesmo é trabalhar a possbilidade de trazer as luzes à sombra, para que através da inversão possamos achar significados e caminhos novos para a nossa existência. Que vá em paz, nosso querido e lúcido escritor!
Só para avisar, a cena está no minuto final deste trecho do filme. No youtube, vocês podem encontrar outros fragmentos de "Janela da Alma", inclusive uma fala de quase 9 minutos do escritor português.
Separei do documentário, para mim, a cena mais melancólica, em que ao anoitecer de uma avenida norte-americana, tomada de letreiros e faróis de carro, a voz de Saramago narra um texto em que mostra como as luzes das grandes cidades são cavernas que nos impedem de ver a "verdadeira" luz. Soa platônico? Pode ser, mas o platonismo de Saramago, longe de querer uma ordenada República, deseja mesmo é trabalhar a possbilidade de trazer as luzes à sombra, para que através da inversão possamos achar significados e caminhos novos para a nossa existência. Que vá em paz, nosso querido e lúcido escritor!
Só para avisar, a cena está no minuto final deste trecho do filme. No youtube, vocês podem encontrar outros fragmentos de "Janela da Alma", inclusive uma fala de quase 9 minutos do escritor português.