
Sabia que andava triste, mas não sabia que tamanha tristeza tinha também emudecido meu mundo. O prazer de descobrir sempre novas possibilidades sonoras foi s`imbora sem que eu me desse conta. Na verdade, se foi bem mais coisa na minha vida... Passei por um longo período de complicações, mas nada se compara aos últimos três meses. Praticamente tudo perdeu o sentido. E quando as coisas perdem o sentido, não tem sol, não tem mar, não tem lua (nem cheia), não tem sorriso de amiga ou namorado que nos faça. Tudo é nada. Morando no 17o andar de um prédio soteropolitano, eu só tinha uma certeza: de fato não tenho tendência suicida.
Dos amigos nesse período, distância. Porque falar, emitir qualquer som era um grande esforço. Lembro de um dia uma amiga do RJ me telefonar preocupada: "Fabiana, você sumiu de tudo. Cadê você? Como vão as coisas?" Eu só consegui balbuciar: "A., desculpe, mas eu não tenho nada a dizer. Você entende?" Ela, mais do que especial, na hora: "Claro que entendo. Então não fala nada. Quando você puder falar, entra em contato." A., estou entrando em contato agora. Voltei a escutar música! Tenho tanta coisa a falar...
Não pensem nisso tudo que exponho como um grande peso neo-realista. Não perdi, nem nesse período, a capacidade de rir de mim. Gargalhava sozinha pela minha incapacidade de voar janela a fora o meu mundo.
Foi por tudo isso que sonhar com música não me despertou só para a ausência recente dela em minha vida, mas para um novo começo. Tão bom... O dia inteiro sem tirar aquela sensação: eu e um amante imaginário abraçados numa cama quentinha. O dia clareando e a música ao fundo
O pôr do sol
Vai renovar, brilhar de novo o seu sorriso
E libertar da areia preta e do arco-íris cor de sangue
Cor de sangue, cor de sangue, cor de saaaaangueeeeee
Vai renovar, brilhar de novo o seu sorriso
E libertar da areia preta e do arco-íris cor de sangue
Cor de sangue, cor de sangue, cor de saaaaangueeeeee
Tudo fez tanto sentido nesse sonho óbvio demais que depois de muito tempo senti uma satisfação infantil, um prazer de começo. Um prazer do avesso de tudo que via assim tão sem vida. E a obviedade da trilha sonora onírica continua
O sonho seu
Vem dos lugares mais distantes
Terras dos gigantes
Super-homem, super-mosca
Super-carioca, super-eeeu, super-eeeeeeeu
Criei em mim, no fim da noite de sono, um novo dia. No clarear da cama quente de abraços,
Não tem mais perigo
Digo, já nem sei
(...)
O sol não adivinha
BABY, É MAGRELINHA.
Digo, já nem sei
(...)
O sol não adivinha
BABY, É MAGRELINHA.