terça-feira, 21 de julho de 2009

Somos corpo só e mais nada

Ele me beijará com os beijos de sua boca.
Seu abraço me transportará mais alto que o vinho.

Suave é o aroma dos teus ungüentos,
como ungüento derramado é o teu nome,
por isso, as donzelas te amam
(Cântico dos C
ânticos de Salomão, 1, 2-3)

Não, não, de jeito algum sou hedonista, mas digo logo, só acredito em alma colada a corpo. A percepção que nos é dada como humanos coloca o corpo, esse ente amedrontador, como o centro de tudo. Se sentimos medo, dor, prazer, desejo, tudo isso é o corpo que vai indicar, sinalizar, esconder ou mostrar. É isso! Eros passa por tudo! Nesse sentido sou bem erótica mesmo!

Divagando em minhas reflexões fantasiosas, nada sociológicas, fico pensando se o afastamento absurdo que diversas culturas promovem do próprio corpo não significa, no fim de tudo, um medo absurdo de nossa finitude. É, gente, faz um certo sentido, porque, de fato, o prazer sexual é muito forte, inexplicável e passageiro, transitório como a própria vida.

Como podemos dar conta de tamanha contradição? Sei não, como se trata de um pensamento baseado na imaginação, dou-me o direito de não achar respostas. Mas também me dou o direito ao espanto, quando me deparo com discursos que separam tudo: corpo de alma, céu de inferno, poesia de sexo. Aí não dá! Se literatura se funda na vida e nas relações sociais, para mim, nada mais "natural" do que o corpo erotizado, em excitação, compor linhas de inúmeros poetas e poetisas.

Há mais ou menos dois meses apresentava um trabalho acadêmico ao lado de uma renomada pesquisadora de literaturas africanas e literatura afro-brasileira. Fechei minha fala lendo este poema:





Na hora do debate, não lembro bem por que, mas a pesquisadora falou mais ou menos assim: "Ia ler também esse poema da Marise, mas achei erótico demais, achei que poderia chocar vocês." O meu espanto foi que esse poema nunca me chocou e mais de uma vez já o levei para discutir com os meus alunos, tanto pela riqueza rítmica dele quanto pela perspectiva feminina. Mulher no comando da prática sexual, no mínimo, trai imagens correntes de mulheres passivas, receptáculos de tudo no mundo, inclusive do prazer sexual. Além do mais, meus amig@s desafrocentrad@s que me desculpem, mas a sutileza da palavra "jazz" coroando esse ato de prazer, não só faz referência expclícita ao gozo, já que uma das etimologias possíveis da palavra é essa, mas também afro-poetiza essas linhas, relacionando-as a um gênero musical afro-americano.

Foi naquele momento de indignação que comecei a pensar em trazer pra cá alguns textos que me deixam, diríamos, molhada. Também comecei a constatar como a intimidade sexual é normalmente vista como algum tipo de perversão ou algo espúrio, pura sacanagem, que deve ser mantida debaixo das camas, bem lá no fundo mesmo. Pedi a 3 amigos que escrevem poesias, para que disponibilizassem as suas mais quentinhas. Todos três deram desculpas evasivas e literalmente fugiram. Ficando impedida de publicar inéditos aqui neste blog, vamos a poesias já conhecidas mesmo.

A poesia que fala do corpo erotizado desce ao nível do leitor comum, por isso é interessante ver um poeta tradicionalmente visto como o mestre dos parnasianos, aquele que escrevia "longe do estéril turbilhão da rua", escrevendo o delírio de um homem ao dar prazer sexual a uma mulher.

Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E em frêmitos carnais, ela dizia:
Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos,
Disse-me ela, ainda quase em grito:
Mais abaixo, meu bem! Num frenesi

No seu ventre pousei a minha boca
Mais abaixo, meu bem! Disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...

Olavo Bilac

Ou mesmo o, a meu ver, infantilizado Manuel Bandeira, que morre velho, mas carrega, em sua biografia, o peso da tuberculose que o condenou à morte ainda moço. Aos olhos de quem se resume a conhecer o poeta pelos bancos escolares, tratava-se de um homem triste que pouco aproveitou a vida, voltado que era para as suas memórias da infância numa Recife perdida. A poesia A cópula, no entanto, mostra um Bandeira maravilhosamente devasso, pervertidamente humano.

Depois de lhe beijar meticulosamente
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
culhões e membro, um membro enorme e tujescente.

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinente.
Não pode ele conter-se, e, de um jato esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra!?
Grita para o rapaz que aceso como o diabo,
arde em cio e tesão na amorosa gangorra

E tintilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra)
lhe enfia cona a dentro o mangalho até o cabo.


Essa história de armado e desarmado é ótima! Até na hora do sexo, para o homem, impera a batalha, a luta, a guerra. Nossa! E pelo que vemos, nossos poetas sérios e conseqüentes gostam mesmo, em suas simulações sexuais, é de mulheres nada recatadas. Não quero separar nada aqui, por isso não caio na cilada de dizer que as mulheres que gritam de prazer nas duas últimas poesias são somente para foder, na cabeça dos homens. Recuso-me a me limitar às representações mais comuns e acho sim que homens, tal qual as mulheres, ora unem o prazer sexual ao sentimento amoroso e ora separam ambos os espaços. Cuti une liricamente sexo à intimidade amorosa no maravilhoso Luz na uretra:

O coração na cabeça do pênis
sístole e diástole sou-te
na vagina
e
num vôo riacho
espalho-me
via láctea
no teu infiníntimo.

E também De Paula imagina um deliciosíssimo ICE-CREAM, alimento do corpo e da alma, que, além de saborosamente prazeroso, aquece e funde dois amantes apaixonados:

Teus lábios... framboesa.
Meu sorvete... chocolate.
Você chupa...
A gente se aquece, se funde...
O gelo derrete....
Você amolece,
Eu me enrijeço.

Teus lábios... morango.
Minha cobertura... caramelo.
Arfando... gemendo,
Meu creme transborda,
Em jorros de emoção,
Prazer ... e alimento.

Mulheres, falando poeticamente de experiência sexuais, dão voz a séculos de silenciamento. A solidão de um sábado à noite se transforma, na poesia Nós voláteis de Lia Vieira, em uma erótica experiência a sós.

Billie Holliday e aquela solidão arretada,
numa noite de sábado.
O feriadão levara as pessoas.
Para disfarçar o tempo, queimou um comercial
e ligou a tevê sem o som.
Para ocupar suas idéias,
um variação de literatura esotérica.
Nesta digressão filosófica, o teto começou a vibrar.
Atentou para o ruído e
percebeu que a libido no apartamento de cima começara.

Estavam literalmente fodendo na sua cabeça.
Aqueles rangidos e gemidos ritmados
lhe despertavam desejos adormecidos até então.
Seu corpo retesou-se e arqueou-se em ondas, enquanto a
dupla alienígena
contemplava a encenação.

Lá fora, a vida fervilhava, e ela
solitariamente pegava uma carona
nesse trem de fantasias.

A partir de perspectiva onírica, a portuguesa Maria Tereza Horta encena a descoberta do ato sexual entre esses seres imaginários que talvez representem a inocência diabólica do corpo e de todos os prazeres eróticos:

Os anjos

Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante

em que sabem
do pênis:

com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas

São raríssimas as
asas
que não partem dos seios

a florir nos
ombros

Como um manso púbis
com os seus veios
de sombra

E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pênis
do anjo que voava
por cima

de manso
procurando
o fundo da vagina

De maneira mais explícita, também cantamos o membro que nos absorve, enruga e arrepia, tal qual Regina Amaral, em Tesão:

Teu falo é um facho
Fascinante.
Eu me encrespo
Sempre...
Teu facho é um fato
irreversível!

Se inicei com um texto bíblico em que o vinho torna mais alto o ambiente de Sulamita e Salomão, termino com o que o efeito Baco desperta em meu corpo. Já me perguntaram inclusive se não sou eu a Tarada num carro. Quem sabe? O poema foi feito por Ana C. Pozza, que inclusive tem uma produção para lá de quente, mas, como leitora que é leitora se apossa do alheio pra ela, pode ser que seja eu mesma.



Eu não minto
Eu invento
E se tomo vinho tinto
Logo me esquento!
Quando sinto,
Eu tento.
Percorro o labirinto,
Busco o vento.
Arranco o teu cinto,
Deixo-te sedento
Aí vejo o teu pinto
E sento!



Há ainda infinitas possibilidades de erotismo poético. Isso aqui na verdade é só um aperitivo. Não selecionei poesias que tratam, por exemplo, da prática homossexual por puro desconhecimento. Outras seleções certamente virão. Por ora, quem quiser ler mais, vale a visita ao site Poesia Erótica.

sábado, 4 de julho de 2009

III Fórum Nacional de Performance Negra

Clique sobre o folder para vê-lo ampliado

Programação completa em Bando de Teatro em Cena

terça-feira, 30 de junho de 2009

COISA DE MENINA... BOBEIRINHAS QUE INTERESSAM...

Pois é, como nesta babel de internet achamos o inimaginável, acordei disposta a ter aula de como andar de salto alto. Não é que achei uma maneirinha!!!!!!
Amanhã à noite, arriscarei meu primeiro salto agulha da vida! Oxalá dê certo! Compartilho com minhas SOULSISTAS o aprendizado. Aproveitem, meninas! Afinal, bobeirinhas sérias também enchem de vida o nosso cotidiano.

Para quem quiser, há a versão legendada: The secret to sexy heel wearing & Fitness

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Never can say goodbye


Um misto de farta felicidade e descrédito foi a sensação que senti aos 11 anos, quando ganhei um concurso de dança Michael Jackson, no auge da fama do cantor, com o álbum Thriller, marco da música mundial. Lembro que, no dia da festa do tal concurso, ensaiei incessantemente aquele famoso passinho de deslizar pra trás (Moonwalk), até conseguir fazer o mais próximo do astro negro que achava lindíssimo, aliás, o único no período da minha pré-adolescência. Absurdos à parte, já me identificava com aquele corpo frágil, dançante e com o cabelo relaxado, que também passou a virar febre no Brasil desde meados da década de 80 e eu, claro, acabei também por copiar aqueles cachinhos molhados com muito gel e água mesmo.

Mas no dia do concurso, eu estava com um colorido rabo de cavalo. Como odiava alisar meu cabelo longo, minha mãe era obrigada a inovar nos penteados. Para aquela festa, do meu rabo saiam várias trancinhas presas com mini presilhas coloridas. Um gracinha!!!!! Tenho a impressão de que o penteado também ajudou na vitória. Primeiro ano de Pedro II, festa do Leo. Apesar de ser uma escola pública, era uma das poucas negras da turma e do colégio. Ganhar aquele concurso de dança foi, portanto, uma espécie de popularização da minha imagem para aqueles novos amigos e o mais importante: a certeza de que poderia comprar lanche na hora do recreio, por uma semana.

Foi relembrando essa e outras passagens que recebi a morte de Michael Jackson. Como disse meu amigo Márcio André, independente de se acompanhar ou não o Michael mais recente, sua morte nos traz a infância de volta. Uma memória oscilante, tal qual o mundo emocional do astro, que atua pra frente e pra trás. Daí vêm as lembranças da mais tenra infância, com os Jackson Five, escutado pelo pai e dançado por todos em casa. Uma festa!

Depois, os desencontros. Um Michael cada vez mais branco, cada vez mais perdido, cada vez mais diferente do que parecia ter sido na minha infância e adolescência. Porém, ainda genial, tanto que não se furtou a falar da sua mudança aparente de cor, na canção Black or White: "I'm not going to spend/ My life being a color". De fato ele não se resumiu a ser uma cor, como nunca foi de uma cor só, para o desprezo de brasileiras engajadas racialmente como eu.

Sua Neverland, seu quarto tomado de bichos de pelúcia e outros brinquedos, acusações de pedofilia, máscaras no rosto, nariz cada vez mais afilado, pele sem cor, filho comprado, entre outras excentricidades tornadas públicas. Um artista genial desde os 9, 10 anos de idade, totalmente em desencontro com ele próprio. O Michael que ontem se foi são esses todos e mais aqueles outros que o público não conhecia. Para mim, sua morte faz parte da continuidade do mito, da lenda pop que ele se tornou, com sua voz, suas composições, sua dança, seu carisma. Pessoalmente hoje, da trajetória em desencanto, fico com tudo dos Jackson Five, especialmente a música mais tocante, utilizada belamente em cena de Crooklyn de Spike Lee, Never can say goodbye...

terça-feira, 12 de maio de 2009

A DONA DOIDA TECELÃ

A gente muda nossos caminhos para que belas coisas se nos teçam novamente...Pois então, antes fazia meus exercícios matinais no Dique do Tororó, um das áreas mais lindas de Salvador, com jardineiros ultra cuidadosos, que cuidam da grama e de tudo ali, como se estivessem no quintal de suas casas (quando criança, jamais imaginaria que beberia a água do Dique, mas cantava feliz "Fui no Tororó beber água e não achei..."). Como me mudei, passei a ir para o Campo Grande. Não, a beleza não é decididamente a mesma. Mas... há mais loucos lá.

E com loucos, observando fundo, a gente sempre aprende alguma coisa. Tem uma que freqüenta a padaria aqui em frente ao meu prédio. Sempre bem vestida e com uma pasta, como se estivesse sempre indo para algum curso. Ela anda na ponta do pé. Com certeza, essa queria voar... Nossa constituição sem asas não a deixou, daí... ela enlouqueçou, né? Não agüentou ter que ficar presa a Terra! Se fosse esse meu maior desejo, eu também não agüentaria... Por isso a entendo.

Há lá no Campo Grande uma louca muito interessante. Muito mesmo! Ela é daquelas que andam cheias de sacolas, com sacos dentro, muitos sacos. É o que a gente vê de fora. Mas essa põe ordem na bolsas: tem uma de couro, vermelha e branca, não é possível saber o que há lá dentro, mas está sempre cheia; uma mochila gordíssima, que hoje vi, tem linhas, novelos de linha de várias cores e tamanhos, e coisas tecidas dentro; dois sacos grandes, esses sim cheios de sacos. Sabe-se lá o que há neles. De fora, só se vêem sacos, mas lá podem estar escondidos assim, despretensiosamente, seus maiores segredos, né? Vai saber...

Sempre notava aquela senhora, às vezes quietinha dando comida aos pombos. Roupas e corpo muito limpos. Um cabelo ondulado meio grisalho, gorda, pernas torneadas. Quando senta, suspende a longa saia até os joelhos. Aquela mulher, hoje trapo, parece ter sido bem cortejada no passado.

Mas às vezes ela grita, implica com o traseuntes matinais. É isso... se não gritasse sem censura não seria doida né, gente? E são os gritos dos doidos tão desprezados por todos que me chamam mais atenção. Não bem o que é dito, mas como o corpo todo funciona nessa hora.

A raiva louca, no momento do grito, não é só da pessoa com quem o doido implica, já notaram? É antes uma raiva múltipla: de si próprio, de alguém e do mundo todo, da própria vida, das sombras de si. Sei lá... Só sei que é uma raiva que quer se mostrar, é uma raiva pra todo mundo saber. E essa Dona Doida do Campo Grande, quando está com raiva... Sai de baixo! Ela anda de um lado pro outro, gesticula e xinga. Minha nossa senhora! Algo se quebrou dentro dela, soltou a linha, descarrilhou como dizia minha vó costureira.

Só que desde a última vez que a vi, na semana passada, tenho notado. Quando ela tece, fica calminha, soltando risinhos de felicidades a todos que passam. Hoje tinha um senhor andando com seu cão e ela vociferou bem alto, porém terna: "Ele gosta muito de você, muito mesmo". O senhor prontamente respondeu: "Gosta sim. Eu o trato muito bem." E ela: É, é sim! Deve ser por isso. Ele gosta muito de você." Ela não disse, mas seu olhar também transmitia um "Eu também gosto muito de você, não só seu cão". Impressionante! Ao invés de raiva, ela lançava um olhar de amor sobre o mundo. E crochetava um lindo paninho branco e verde, um verde bem aberto.

Uma doida crocheteira...O que será que ela tece em si enquanto manuseia as agulhas com destreza e lança olhares apaixonados sobre o mundo?

Agora sei, sua calma vem das agulhas... Ao se apropriar dessa atividade de fiar com as mãos, tecer belas formas e cores, render tecidos à vida, algo dentro dela encontra paz. Tal qual Penélope que, na Odisséia, tece o próprio destino ao destecer à noite o tecido do dia, escolhendo esperar o marido sumido na guerra, a Dona Doida tecelã daqui da Soterópolis encontra um canto de conforto dentro de si quando suas mãos se encontram felizes com as agulhas de crochê. Essa tecelã amalucada remonta às nossas milavós que teceram, nos fundos das casas, suas vidas domésticas. Essa doida boa de tecer, ao criar seus panos, cria é textura de poder para a própria vida!

É, foi bom demais vislumbrar a alegria tranqüila no lugar da raiva daquela Doida. Agora já posso cuidar pra ela não mais se enervar. Sem suas agulhas, ela fica doida no encalço, só melhora quando crocheta. Portanto, se ela voltar a andar desesperada pela grama do Campo Grande, antes que grite, paro minha corrida e vou comprar novelos de linha. Dou a ela e ela vai de novo reencontrar em si o canto todo bordado de flores que a constitui... Vendo-a tecer, também eu reencontrarei em mim meu canto rendeira. E assim seremos duas a tecer em belos desenhos as agruras sombrias e as belezas plenas de luz de nossas vidas....



Da série SOULSISTA

quarta-feira, 6 de maio de 2009

EU TENHO SIDO ABENÇOADA HÁ TANTO TEMPO...

Querid@s, saudades disso aqui, sabe? Tantos afazeres, a falta de tempo para as coisas essenciais anda grande. Mas enfim... Vamos nos deliciar um pouco com uma bela música?

Para mim ela é uma oração, uma oração feita por essa linda mulher cheia de curvas, assim como eu. Como diz o sensível filme que minha grande amiga Raquel me presenteou agora no último janeiro, "Las mujeres verdaderas tienen curvas". Atentem para a fisionomia de deslumbramento de toda a platéia de Paris, mas principalmente as meninas da frente, essas sim, escutando, de fato, uma grande verdade. Sintam-se tocada(o)s por Scott...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

sábado, 11 de abril de 2009

MINHAS DUAS ANCESTRAIS VIVAS (declaração de amor)

Este texto é antes de qualquer coisa uma declaração de amor. Leli, meu avô, já antigo conhecido dos que me lêem desde o início (setembro de 2008), me deu muito mais presentes do que os apresentados no texto inaugural dessa coisa aqui. Dois dos mais preciosos são duas irmãs dele, minhas tias-avós Zelina e Bubu.

Antes de ontem, sexta-feira santa, dia do almoço sagrado na casa delas desde 2007, voltei da Liberdade me prometendo escrever aqui um texto para homenageá-las. Como acabou não dando pra fazer no dia, a idéia tinha amansado em mim, mas hoje, folheando um esporádico diário que escrevo, achei um texto escrito na primeira semana-santa soteropolitana da minha vida.

Em 13/04/2007, refleti, sob os auspícios de Baco (porque depois de intensa vivência com o mundo delas, só um vinho pra me ajudar a desvelar aquilo tudo dentro de mim), sobre o que representava a vitalidade daquelas arqui-mulheres na minha vida. A vida delas, sem dúvida perto do fim, proporciona que eu ligue as pontas todas dos tempos que me constituem: desde antes de eu nascer até depois de eu desaparecer.

Tais quais os mitológicos personagens de Guimarães Rosa, minhas lindas tias vivinhas da silva guardam uma alegria de viver, uma lucidez e uma fé, no mais profundo sentido que essa palavra possa ter, que é de cansar qualquer jovem que se sente ao lado delas para escutar suas saborosas histórias, exaustivamente repetidas, né? Normal... Mas sempre, no meio da repetição de histórias d´antes, vem um personagem novo que eu não conhecia ou uma faceta nova de personagens já conhecidos.

Nessa sexta mesmo, descobri que meu avô já trabalhou voando. Bem novinho, era radiotelegrafista de bordo e orientava o piloto bem ao lado dele, ali da cabine. Isso ele nunca tinha me contado. Lelinho me contava heróicas histórias do trabalho dele em terra, explicando como orientava, a partir dos tipos de ventos e de outros fenômenos metereológicos, os pilotos a saírem de enrascadas que poderiam levar a sérios acidentes. Ele de fato entendia os mistérios dos aviões e sua voz traduzia um verdadeiro amor pela aviação. Pois foi a pedido de sua mãe, Dedé, que meu avôzinho parou de voar, ainda bem jovem. Nossa... uma mente que ama imaginar o não acontecido como a minha, já me levou a pensar quão mais audacioso seria meu avô se tivesse continuado a furar céus, voando nessas enormes aeronaves por aí.

Sem as inspiradas versões de minhas tias, jamais tomaria conhecimento disso e de outras histórias da minha família. Elas são o contraponto do meu avô, porque, se ele dourava a pílula e mostrava um mundo só de encantamento, elas me contam as mesmas passagens por outras perspectivas e vão logo dizendo. "Seu avô, ah, pra ele tudo era bonito e perfeito, Fafá, mas papai não era mole não... mulherengo que só ele". "Dedé, nossa mãe, era ótima! Mas não queria que suas filhas se casassem. Não é porque ela tinha sido infeliz no casamento que nós seríamos, né? Não entra nessa não, viu, Fafá, se case!" Por esse senso de realidade, minha visão delas mudou radicalmente. Antes de vir para Salvador e ficar mais próxima do mundo ultra-contemporâneo delas, minhas tias se resumiam a ser as carolas da família. Aquelas mulheres que se refugiaram na fé católica por medo da vida, dos encantos sensuais ou eróticos que nos fazem queimar, para o bem e para o mal.

Ledo engano meu! A fé dá não só sentido, como lucidez e erotismo a suas vidas. Quando falam em homens do passado ou do presente mesmo, os olhos delas vibram e eu vibro por dentro, por ver que estão vivas e que sentem prazer, um amor pela vida que as levam a não querer ir embora deste mundo. Ah, esqueci de dizer, Tia Bubu tem 94 anos (é a mais velha de todos os filhos de Dédé e Phillipe) e Tia Zelina completará 91 agora no proximo 27, apenas 3 dias após o meu aniversário (só para avisar aos leitores daqui, ta?). Vale contar, em separado, fragmentos da história de cada uma, porque é da riqueza da trajetória de minhas velhas tias pretas que eu bebo água benta e purifico meu corpo...



Tia Zelina foi a mulher desbravadora da família. Uma perspicaz aluna que fez parte do grupo das dez melhores notas de uma importante escola normal de Salvador. Os estudos dela foram custeados pelo meu avô, que na época, já trabalhava, e alugou uma casa na capital, pois seria pouco prática a vinda diária da Ilha (de Itaparica) pra cá. Tia Zelina foi professora num tempo em que era necessário ir a lugares pouco habitados do norte e nordeste do país. Embrenhou-se por terras indígenas da Amazônia. Num desses lugares, ela conta, decidiu voltar para Itaparica 6 meses depois, pois sofria com saudades da sua terra e família. Alunos-garimpeiros ofereceram fortuna em ouro e diamante, para que ela não fosse embora. Sempre que acaba de contar essa história, ela diz: "Nós poderíamos ser milionárias hoje, Fafá! Mas eu não aceitei." No meio de suas histórias de viagem, ela demonstra certo arrependimento por não ter tido coragem de continuar viajando, descobrindo mundos diferentes dos seus. Suas histórias são uma maneira de se rever, já no fim da vida, refletindo sobre o que sabe que não poderá mais fazer.

Tia Zelina gosta tanto da vida que o que mais a angustia, mesmo com toda fé que tem no Santíssimo, é a proximidade da morte. Isso ultimamente a tem deixado sem sono, mas perder a lucidez, ela não perde não. Agora, essa tristeza toda vai embora, quando a casa se enche de gente e a festa começa: são vizinhos entrando e saindo, padre que reza para Nossa Senhora lá, benze a casa e depois todos da comitiva religiosa se fartam com delicioso café da manhã, é gente passando para vender peixe, beiju, ex-alunas que ligam.

Aniversário naquela casa tem que ser comemorado com bolo bonito, todo confeitado e em forma de coração. Nos seus 90 anos, a casa se encheu de ex-alunas-afilhadas do Baiacu (uma região da Ilha de Itaparica). Hoje as antigas menininhas são avós ou bisavós que ainda guardam profundo amor e respeito por aquela mulher preta e distinta que lhes ensinou as primeiras letras. A foto a seguir, mostrandoTia Zelina rodeada por suas eternas alunas, me leva a entender que minha função hoje, como professora, faz parte de uma linhagem de resistência que se estende, pelo menos, desde a década de 30 do século XX.



Tia Bubu é outra coisa, complementa o lado ansioso de Tia Zelina, mas ela é melhor que todo mundo. Pra mim, ela representa tudo o que eu jamais poderia ser: desde o desprendimento para cuidar dos outros, a bondade extrema até a virgindade. É isso mesmo, gente! Minha tia sairá deste mundo talvez sem ter sequer se aproximado da boca de um homem (nem falo de mulher, porque isso ela jamais consideraria). Mas, entendam, o moralismo passa longe dessa mulher criada para ficar em casa, para ser aquela que cuida dos outros porque é assim que tem que ser. Na última sexta-feira, emocionada fiquei, quando soube que foi ela quem cuidou do meu bisavô Phillipe quando ele já se encontrava nas últimas. Na hora de dar banho, ele ficava muito incomodado e dizia: "Quem tinha que fazer isso era meu filho homem". Ela rapidamente respondia: "Mas ele não está aqui. Mora longe. E de mais a mais eu sou sua filha. Deixa de besteira!!!!"

Seu nome, Áurea, eu não sei por quem foi dado, mas com certeza foi alguém com ares de feiticeiro para saber que a personalidade dessa mulher seria de ouro mesmo. Ao contrário de sua irmã docemente ranzinza, Buba gosta de tudo que dá prazer (doces, comida boa e, pasmem, piadinhas de sacanagem, depois das quais vemos ecoar sua forte gargalhada pela casa a fora). Mandou uma sacanagenzinha, ela capta na hora, mesmo com ouvidos que não ajudam mais tanto assim. Quem chegar com bala, ela vai logo aceitando, às vezes escondida da irmã, sempre preocupada com o nível de açúcar no sangue, com a alteração de pressão. Tia Bubu quer mais é viver sem reclamar e aproveitar feliz o tempo que resta por aqui. Por isso, quando Tia Zelina começa suas reclamações sem fim, ela vai logo cortando: "Vamos parar com isso, minha gente! Podemos viver sem reclamar. O sofrimento fica pra trás." Tia Zelina geralmente obedece, mesmo que a contragosto.

A minha alta gargalhada é de Buba com certeza. O meu "gente", arremedado por tantos amigos, é dela com certeza, essas memórias atávicas que se cravam na gente, sabe? Mesmo tendo crescido longe delas, nossa linguagem tem muito em comum. Ah, já ia me esquecendo, mas meu nariz também é de Buba, assim como o de minha mãe, do meu irmão Felipe (esse com outra grafia), de Morena e de João. Todos nós ligados assim... desde a mulher de ouro! Pra mim, é um conforto saber que eu me estendo para antes do meu corpo se constituir como tal em duas vívidas mulheres negras.



Para terminar, parafraseio toscamente - como é bom poder ser tosca aqui, meu deus!- Clarice Lispector e Elisa Lucinda, usando a 2a. pessoa do plural, em sinal de respeito por aquelas que vieram muito antes de mim e continuam por aqui, me dando o privilégio de conhecer grande parte da matéria de que sou feita.

Tia Zelina e Tia Bubu, eu vos amo! Diariamente morro por vosso perfume, aquela lavanda de depois do banho das 18:00, aquele talco perfumado à velhice boa, das mulheres tomadas banho de todas as nossas famílias pretas por aí...



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