domingo, 29 de novembro de 2009

Aqui não é twitter não

Mas a frase para o dia de hoje é

EU NÃO VIM PRETA À TOA.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Tais de joelhos no horário nobre e semana da consciência negra

Terça-feira, 17/11/2009, 21:30, o telefone toca. Eu, irritada. Horário da novela. Meus amigos e amigas intelectuais não entendem meu vício! Atendo e tomo um susto: uma amiga do Rio que pouco me liga. Estranhei. Pensei logo em desgraça. Eu, olho vidrado na televisão vendo uma culpa absurda encarnada no personagem de Taís Araújo, e minha amiga dizendo:"Menina, viu que horror a cena da novela? Estava falando com A.. Que absurdo!". Eu só me limitei a dizer: "Querida C., Salvador não tem horário de verão. Estou vendo a cena agora. Ela vai se ajoelhar mesmo?. C. só se limitou a dizer: vai lá ver, vai lá ver...". Desligamos.

Cena típica de uma noveleira convicta. Sou daquelas que irritam os amigos quando, dependendo do capítulo, evito sair antes de a novela acabar. Daquelas que sempre promete que não irá acompanhar mais nenhuma novela, mas quando outra começa (na verdade, quase sempre a mesma novela com outra roupagem), acaba acompanhando. Daquelas que, mesmo irritada com o escritor (porque discuto muito com elas e eles), quase sempre, sigo vendo a novela.

Obviamente, aquele mundo não tem nada a ver com o meu, os valores e visões de mundo são, de uma maneira geral, deploráveis, mas gosto de estórias infindáveis e a novela é antes de tudo uma contação sem fim. Relaxo mesmo vendo os absurdos que desfilam na televisão brasileira, sobretudo os das Organizações Globo. Gosto de uns autores, desgosto de outros, mas só deixo de ver mesmo a novela muito mal construída. Agora, o que tenho sentido ao ver cenas de VIVER A VIDA de Manoel Carlos tem sido uma miscelânia de raiva e indignação.

De fato, as novelas desse senhor sempre me irritaram, com um mundo tão amplo quanto os limites do Leblon. Lamentável o cotidiano daquele bairro naturalizado como se fosse o único do Brasil. As empregadas negras, puxa-sacos dos patrões, chatas e, geralmente, gostosas nos seus micro-uniformes azuis, rosas ou salmões (nada contra micro-vestidos, pelo amor de Deus!). Aquela velha representação da preta doméstica boa de cama! A Zilda por exemplo , personagem de Laços de Família, feita pela linda Thalma de Freitas, tinha esse perfil deplorável e ainda gritava diariamente com uma voz de gasguita "Dona Heleeeena"!

Tudo bem que ele não é o único a construir essa típica representação na teledramaturgia brasileira, como bem já demonstrou Joel Zito no livro e documentário A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. Porém, entre os autores de novela recentes, me parece ser o pior.

Por outro lado, ao construir uma protagonista negra, Maneco tem feito um grande favor a nós que vivemos e procuramos pensar sobre a desigualdade racial no Brasil. As tensões raciais em circulação no nosso país, ao invés de amenizadas, como bem desejaria o porta-voz do Leblon, têm sido marcadas pela super-exposição. Encenada como um grande avanço dramatúrgico, as cenas traem um Brasil inventado como racialmente harmônico, através de uma protagonista negra adestrada pelo embranquecimento. Tendo crescido em uma família negra de classe média, com pai músico, bon vivant e mãe ultra-conservadora, dona de pousada, a protagonista, porém, mostra-se carente de referenciais negros, cercada de amigos não-negros, com certeza, segundo a crença de Maneco, devido ao meio social em que vive.

A infelicidade da cena transmitida no início da semana do 20 de novembro revela índices de violência racial incessantemente (re)encenados na teledramaturgia brasileira. Pior agora, porque travestido na emoção de uma atriz vista como aquela que abre portas para o negro na televisão brasileira. Primeiro, ainda adolescente protagonizou a novela Chica da Silva; depois, foi a primeira protagonista negra da Globo em Da cor do pecado; agora, a primeira protagonista da produção mais cara da mesma emissora.


O pedido de desculpas de Tais Araújo/Helena, ajoelhada diante dos olhos claros de Lília Cabral/Tereza, representa um lugar - o da subserviência - obsessivamente ocupado por personagens e atores negros na televisão brasileira. A cena me pareceu a volta imaginária de tantas sinhazinhas, mucamas, mulheres escravizadas que desfilam nas telenovelas. No momento da cena, não dava para pensar só no enredo da novela e na tragédia vivida pela heroína negra de Maneco. A encarnação cristã da culpa fez a personagem dizer que prefiria ser ela a estar sem os movimentos das pernas e dos braços. O resultado por tamanha submissão (como sempre disse minha mãe: "quem muito se abaixa..."), foi uma bofetada na cara e o ódio da personagem cujas características físicas demonstram um lugar de domínio.

Agora, tão violento quanto a posição de Helena e o tapa recebido é o desolamento vivido pela personagem. A família, morando em Búzios, não se abala pelo drama vivido pela grande modelo internacional, com certeza o motivo de orgulho da família. Até mesmo a mãe de Helena, destoando das representações de mães-leoa de Maneco, limita-se a rezar para o santo de devoção e esperar a visita da filha em casa. Mesmo tendo familiares, a protagonista negra continua como outros personagens negros de telenovelas: sem família, desgarrados. A culpa encarnada por Helena também parece supervalorizada, já que, provavelmente, segundo o perfil da personagem, ela deve ter encarado barras pesadíssimas para se tornar a modelo brasileira de maior sucesso, segundo o texto da novela.

Enfim, uma seqüência de desastres narrativos têm construído uma das protagonistas mais inverossímeis da teledramaturgia brasileira. A única coisa boa nesse mar de inadequações é que nós, telespectadoras negras, podemos, a partir do desfile de atrocidades da novela, aprofundar uma reflexão sobre as danosas conseqüências do racismo em nossa sociedade.

A cena construída por Maneco para ser transmitida em plena semana da consciência negra me fez perder de vez a vontade de acompanhar a novela. Meus amigos intelectuais, durante os próximos 4, 5 meses talvez, poderão me ligar entre as nove e dez horas da noite à vontade!



Quem quiser ler uma interessante reflexão sobre a mesma cena da novela, acessar A Globo e seu TOC (ou a remasterização obsessiva das representações desqualificantes)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

RESPEITO AOS MAIS VELHOS


Interessantíssimo seminário promovido pelo Bando de Teatro do Olodum.
Quem quiser maiores informações, visite o site do Teatro Vila Velha

terça-feira, 3 de novembro de 2009

PESSOAL, PARTICULAR...

Que saudade de ter tempo para escrever nisto aqui!

Na verdade, o título deste post seria MÚSICA PARA O DIA DE HOJE, como sempre faço quando quero transmitir sentimentos meus a partir de canções e artistas que admiro. Mas como a música é cantada por Seu Jorge, achei necessária uma curta explicação.

Queria colocar mesmo um vídeo de Peu Merray, o compositor da música, no Balcão Cheio de Assunto, um descolado canto criado por ele mesmo, onde mais tenho escutado música boa em Salvador. Como precisarei do que não sobra agora, para apresentar esse lugar , deixo para depois um único texto dedicado a isso. Também não achei um vídeo de Peu com qualidade para disponibilizar aqui.

Agora, Seu Jorge tem me despertado sentimentos bem contraditórios. Uma grande voz, porém, a meu ver, tem se perdido em um estilo de vida "bem particular". De "A carne mais barata do mercado", cantada no início da década de 90 com o "Farofa Carioca", passou, infelizmente, a fazer ode a burguesinhas e ser feijão em festa de bacana. Lamentável! Por outro lado também, não posso deixar de considerar que se trata de uma bela espécime de homem preto. Isso conta muito, né? (rsrsrsrssrsrsrs)

Aqui, ele acabou por acertar em cheio ao gravar uma música de Peu. O que importa para mim mesmo, além do swing da música é o refrão singelo e otimista:

E o bom da vida é
Viver bem, estar bem, querer bem
Deixa eu namorar...


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Eu... um livro pra Chico



Chico, minhas nádegas não são rosadas
Muito pelo contrário
Mas não há pele que reluza mais as letras do que a minha
Teresa sou, a última...
Dispo meu corpo e olho refletido no espelho
Um livro inteiro em mim

A primeira T., amada demais
Pura Perdição
Ela não sabe mesmo ler o livro em si

As putas, desalinho,
Nem Teresas são
Mero simulacro

As Teresas estudantes, afobadas demais
Não se deixam admirar, oferecidinhas
O livro com elas não ganha tino nem ritmo

Meu ritmo, na medida exata
Sou eu, Chico, teu livro
Nasci e já sabia
Queria ser livro
Ser livro para um homem só

Por isso deito ao teu lado na cama
E te deixo escrever em mim
Cuido de ti, das tuas letras
E calma, raspo a cabeça
depois que tudo é só tanto de letra em meu corpo
Ali, você pode findar o texto
Ou até mesmo assumi-lo infinito

Eu, Chico, um livro semi-aberto por decifrar
De trás pra adiante, de adiante pra trás

Só eu no mundo para ler teus escritos, mais ninguém
Por isso eu te ensino
E ofereço meu corpo em papiro

Dias e noites... orgias de escrita
Depois da água bebida
A minha, branca, a tua, transparente
Continuaremos grafias em nossos corpos
Profusão de letras
E eu, um livro
Sem fim...

sábado, 3 de outubro de 2009

Nei Lopes premiado


Acabei de saber por email que Nei Lopes ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria "livros didáticos e paradidáticos". O feito é digno de nota porque o assunto é dos mais pertinentes ao ensino formal do Brasil contemporâneo. Utilizando palavras do próprio Nei, sua História e cultura africana e afro-brasileira, editada pela Barsa Planeta em 2008, trata da "mestiçagem cenográfica", que tem sido encenada e re-encenada em nosso país. O tema está na moda, mas pessoas competentes para desenvolvê-lo são raras. Nei Lopes, de fato, tem autoridade para abordar criticamente o assunto. Certamente, este livro será uma das minhas próximas leituras!

Um dos maiores eruditos em história da cultura afro-brasileira, o cantor, compositor, sambista e, como ele bem gosta de enfatizar, escritor Lopes, devido à vida e currículo dedicados a lutar intelectualmente contra o racismo, já deveria ter sido agraciado com muitos outros prêmios editoriais, diga-se de passagem! Por ora, deliciemo-nos com a palavra sempre bem-humorada, inteligente e crítica do seu Lote aqui na rede e festejemos com ele o fato de ter entrado no Jabuti, como ele mesmo disse, pela porta do livro didático!

Que essa premiação signifique também o largo uso do seu livro nas salas de aula!

domingo, 27 de setembro de 2009

Fartura pouca, meu pirão pra todos


Cosme e Damião
Cadê Doum?
Cosme e Damião
Vem comer seu caruru...
(Domínio Público)

Salvador tem me dado muitas coisas boas, uma das que mais me emociona é a possibilidade de contar o tempo a partir de momentos sagrados que se renovam. Sejam as trezenas de Santo Antônio em junho, sejam, no mês de agosto, os filhos de santo de Omolu fazendo suas andanças de pedidos, seja o alegre mês de setembro, com múltiplos fartos carurus como oferenda a São Cosme e Damião, os famosos carurus de sete meninos.

Esse mês já fui a dois, bem diferentes, porém maravilhosos. Sinto-me espiritualmente confortada não só com a saborosa comida, mas principalmente quando vejo os preparativos, as panelas ou travessas cheias, as crianças correndo, as cocadas, a cana, a banana frita, a pipoca. Tudo muito, muito gostoso! Tão bom quanto a volta da escola pra casa, recolhendo com minha irmã Adriana, sacos e mais sacos de doces de Cosme e Damião pela Rua do Catete. Em casa, pegávamos a maior bacia, juntávamos todos os doces e tínhamos balas, maria-moles, cocadas, pés-de-moleque semanas a fora....

Esse mês cheio de dêndê e doçuras também me leva mais uma vez a refletir sobre o quanto a fartura tem sido para poucos e a miséria espalhada por entre tantos neste mundo. Hoje, ao passar pela Praça Piedade, vi três carros distribuindo não doces a crianças, mas quentinhas para dezenas de moradores de rua que por ali circulam. Adultos, tais quais crianças, corriam doidos pelo prato de comida ao meio-dia e, rapidamente, se escondiam onde dava para comerem sem serem incomodados; crianças com os braços abraçados a balas e doces também aos montes pulavam em desvantagem pelo prato de comida. Alguns meninos, ainda lerdos do efeito do crack, desconseguiam levantar do banco para disputar o almoço. Comer pra quê?

Claro, aquele almoço era saco de doce em oferenda... É, o poder do tempo sagrado pode não resolver o problema da fome, mas ameniza, por um momento, a dor de muitos. E isso é, de fato, poderoso!

Que a farta doação de amor transformada em ritual no setembro de Cosme, Damião e Doum tome radicalmente as nossas vidas para que, de fato, a alegria da fome saciada se expanda pela Terra, nossa casa toda!







segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Flores... uma infinidade de flores


Ando piegas... cada vez mais! E ultimamente dei pra usar flores no cabelo, como se quisesse mesmo dizer que por sob a força dos meus fios crespos há muita doçura, muita...

A minha caixa de madeira cuja tampa possui, em osso, um mapa da África nem fecha mais de tantas flores que há lá. Tem verdes, brancas (muitas), amarronadas, uma só vermelha e muitas, muitas coloridas, com tons de dourado, com diversas texturas, de tecido liso, de tecido estampado, de sisal, de palhinha delicada e até de plástico, uma mais linda que a outra. E tenho já em mente as que chegarão, quantas cores e formatos de flores poderei usar pra me enfeitar, fantaseando-me de mulher açucarada a passear por aí...

Nao é que hoje, diante de tão intensos e contraditórios sentimentos me deu vontade de distribuir flores a amig@s especiais que, por diferentes motivos, têm participado da minha vida recente direta ou indiretamente. Todos esses, sendo familiares ou não, inspiram-me diariamente para trilhar caminhos cada vez mais de acordo com o que acredito e quero pra minha vida e pro mundo.

Eita! Acho que acordei vendo flores em tod@s que têm me rodeado, porque recebi a terna visita de uma amiga de infância. Gente! Há coisa mais confortável do que ter um amiga de infância? Minha nossa, é muita vida junta pra atar e desatar nós... Duas meninas se conhecem aos 11 anos numa fila de escola, uma experiência nova pras duas. A maior, com cara emburrada porque não queria de jeito nenhum sair da escola antiga, com medo também. A menorzinha toda animadinha e solta... Aqui é a fila da 1503? É sim, responde a maior, sem querer prolongar o papo. Apesar de a menor ter achado a maior metidinha, a identificação foi mútua e quase instantânea. O tempo tem passado, nossas vidas têm tomado caminhos tão distintos, mas a admiração mútua continua. Sinto muitos fios atando-nos uma a outra, apesar da distância física já há alguns anos, apesar de sermos mesmo bastante diferentes uma da outra. Mas isso não importa, porque o que importa nas longas amizades é saber que a pessoa está lá, em algum lugar do mundo, vivendo a própria vida, mas que ao primeiro alô ou abraço a intimidade de sempre é instantaneamente retomada, tanto tanto que até zoação é a mesma de sempre. Através de amig@s de muito tempo nos reconhecemos novamente pelo olhar antigo-novo lançado sobre nós. Às vezes, achamos que mudamos muito, mas vem a amiga e mostra o quanto algum
as ações, discursos ou maneira de ser são os mesmos de anos atrás. Os conselhos continuam sinceros, desinteressados de tudo que seja interesse prático, material. E as fofocas, nossa, as fofocas são sempre renovadas... Muito bom!

A presença de Thati aqui em casa deu leveza a um momento triste pela perda da minha querida Tia Áurea, Bubu para os de casa (Quem quiser conhecer um pouco dessa mulher especialíssima, leia neste mesmo blog o texto MINHAS DUAS ANCESTRAIS VIVAS (declaração de amor). Apesar da tristeza da ausência, a tranqüilidade de saber que uma mulher tão boa, espirituosa e engraçada como Tia Bubu sofreu pouco no seu fim. Sinceramente, o Deus que ela tanto acreditava não podia deixá-la sentir muita dor, se angustiar mais do que a própria angústia de se saber próxima do fim indefinido... que nos espera sempre. Agora, sentada ao lado de Lelinho, seu irmão, e de todos os outros que já estavam ansiosos para rever sua alta gargalhada, tenho certeza de que Tia Bubu está em paz! Como despedida, ela, envolta em lindas margaridas brancas e amarelas, ao lado dos que a amavam assistimos a uma linda missa cantada. Por um instante, pude escutar sua voz cantando alto e suas palmas exultantes! Ali então senti que ela foi embora feliz. Acho mesmo que ela desencantou daqui, para encantar outros mundos, outras gentes...

Voltar pra casa do funeral e rir com Thati foi um bálsamo de doce aroma regando as infinitas flores do meu próprio jardim... Por tudo isso, a vontade de distribuir ramos de flores aos amigos mais queridos veio dos últimos quatro dias intensos em alegria, tristeza, saudade e amor.

Presenteio então com flores desde Kibe (Márcio Macedo), meu inteligentíssimo amigo à distância que muito me faz rir e tem o poder de colocar o meu lento cérebro para funcionar, a Naná, cuja proximidade faz com que viajemos na maionese quase diariamente, mulheres da lua que somos, passando por Thatiana, é claro, Miranda, Claudia Fabiana, Angélica, Dani, Su, Déa, Kátia, Adjoa, Jason, Renato, Adriana, Felipe, Lina, Walfredo, Tias Zelina e Bubu, Lua, Joana, Wilson, Fábio, Simone, Carlinhos, Lu, Máxima, Fili e Flora. A tod@s vocês, agradeço a amizade através do florido cenário e figurino do show de Vanessa da Mata, cantando a alegre música BAÚ. No meu bauzinho afrocentrado, não estão só as lindas flores que têm me enfeitado por aí, estão também a memória boa, muito boa de cada um de vocês...