terça-feira, 12 de maio de 2009

A DONA DOIDA TECELÃ

A gente muda nossos caminhos para que belas coisas se nos teçam novamente...Pois então, antes fazia meus exercícios matinais no Dique do Tororó, um das áreas mais lindas de Salvador, com jardineiros ultra cuidadosos, que cuidam da grama e de tudo ali, como se estivessem no quintal de suas casas (quando criança, jamais imaginaria que beberia a água do Dique, mas cantava feliz "Fui no Tororó beber água e não achei..."). Como me mudei, passei a ir para o Campo Grande. Não, a beleza não é decididamente a mesma. Mas... há mais loucos lá.

E com loucos, observando fundo, a gente sempre aprende alguma coisa. Tem uma que freqüenta a padaria aqui em frente ao meu prédio. Sempre bem vestida e com uma pasta, como se estivesse sempre indo para algum curso. Ela anda na ponta do pé. Com certeza, essa queria voar... Nossa constituição sem asas não a deixou, daí... ela enlouqueçou, né? Não agüentou ter que ficar presa a Terra! Se fosse esse meu maior desejo, eu também não agüentaria... Por isso a entendo.

Há lá no Campo Grande uma louca muito interessante. Muito mesmo! Ela é daquelas que andam cheias de sacolas, com sacos dentro, muitos sacos. É o que a gente vê de fora. Mas essa põe ordem na bolsas: tem uma de couro, vermelha e branca, não é possível saber o que há lá dentro, mas está sempre cheia; uma mochila gordíssima, que hoje vi, tem linhas, novelos de linha de várias cores e tamanhos, e coisas tecidas dentro; dois sacos grandes, esses sim cheios de sacos. Sabe-se lá o que há neles. De fora, só se vêem sacos, mas lá podem estar escondidos assim, despretensiosamente, seus maiores segredos, né? Vai saber...

Sempre notava aquela senhora, às vezes quietinha dando comida aos pombos. Roupas e corpo muito limpos. Um cabelo ondulado meio grisalho, gorda, pernas torneadas. Quando senta, suspende a longa saia até os joelhos. Aquela mulher, hoje trapo, parece ter sido bem cortejada no passado.

Mas às vezes ela grita, implica com o traseuntes matinais. É isso... se não gritasse sem censura não seria doida né, gente? E são os gritos dos doidos tão desprezados por todos que me chamam mais atenção. Não bem o que é dito, mas como o corpo todo funciona nessa hora.

A raiva louca, no momento do grito, não é só da pessoa com quem o doido implica, já notaram? É antes uma raiva múltipla: de si próprio, de alguém e do mundo todo, da própria vida, das sombras de si. Sei lá... Só sei que é uma raiva que quer se mostrar, é uma raiva pra todo mundo saber. E essa Dona Doida do Campo Grande, quando está com raiva... Sai de baixo! Ela anda de um lado pro outro, gesticula e xinga. Minha nossa senhora! Algo se quebrou dentro dela, soltou a linha, descarrilhou como dizia minha vó costureira.

Só que desde a última vez que a vi, na semana passada, tenho notado. Quando ela tece, fica calminha, soltando risinhos de felicidades a todos que passam. Hoje tinha um senhor andando com seu cão e ela vociferou bem alto, porém terna: "Ele gosta muito de você, muito mesmo". O senhor prontamente respondeu: "Gosta sim. Eu o trato muito bem." E ela: É, é sim! Deve ser por isso. Ele gosta muito de você." Ela não disse, mas seu olhar também transmitia um "Eu também gosto muito de você, não só seu cão". Impressionante! Ao invés de raiva, ela lançava um olhar de amor sobre o mundo. E crochetava um lindo paninho branco e verde, um verde bem aberto.

Uma doida crocheteira...O que será que ela tece em si enquanto manuseia as agulhas com destreza e lança olhares apaixonados sobre o mundo?

Agora sei, sua calma vem das agulhas... Ao se apropriar dessa atividade de fiar com as mãos, tecer belas formas e cores, render tecidos à vida, algo dentro dela encontra paz. Tal qual Penélope que, na Odisséia, tece o próprio destino ao destecer à noite o tecido do dia, escolhendo esperar o marido sumido na guerra, a Dona Doida tecelã daqui da Soterópolis encontra um canto de conforto dentro de si quando suas mãos se encontram felizes com as agulhas de crochê. Essa tecelã amalucada remonta às nossas milavós que teceram, nos fundos das casas, suas vidas domésticas. Essa doida boa de tecer, ao criar seus panos, cria é textura de poder para a própria vida!

É, foi bom demais vislumbrar a alegria tranqüila no lugar da raiva daquela Doida. Agora já posso cuidar pra ela não mais se enervar. Sem suas agulhas, ela fica doida no encalço, só melhora quando crocheta. Portanto, se ela voltar a andar desesperada pela grama do Campo Grande, antes que grite, paro minha corrida e vou comprar novelos de linha. Dou a ela e ela vai de novo reencontrar em si o canto todo bordado de flores que a constitui... Vendo-a tecer, também eu reencontrarei em mim meu canto rendeira. E assim seremos duas a tecer em belos desenhos as agruras sombrias e as belezas plenas de luz de nossas vidas....



Da série SOULSISTA

quarta-feira, 6 de maio de 2009

EU TENHO SIDO ABENÇOADA HÁ TANTO TEMPO...

Querid@s, saudades disso aqui, sabe? Tantos afazeres, a falta de tempo para as coisas essenciais anda grande. Mas enfim... Vamos nos deliciar um pouco com uma bela música?

Para mim ela é uma oração, uma oração feita por essa linda mulher cheia de curvas, assim como eu. Como diz o sensível filme que minha grande amiga Raquel me presenteou agora no último janeiro, "Las mujeres verdaderas tienen curvas". Atentem para a fisionomia de deslumbramento de toda a platéia de Paris, mas principalmente as meninas da frente, essas sim, escutando, de fato, uma grande verdade. Sintam-se tocada(o)s por Scott...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

sábado, 11 de abril de 2009

MINHAS DUAS ANCESTRAIS VIVAS (declaração de amor)

Este texto é antes de qualquer coisa uma declaração de amor. Leli, meu avô, já antigo conhecido dos que me lêem desde o início (setembro de 2008), me deu muito mais presentes do que os apresentados no texto inaugural dessa coisa aqui. Dois dos mais preciosos são duas irmãs dele, minhas tias-avós Zelina e Bubu.

Antes de ontem, sexta-feira santa, dia do almoço sagrado na casa delas desde 2007, voltei da Liberdade me prometendo escrever aqui um texto para homenageá-las. Como acabou não dando pra fazer no dia, a idéia tinha amansado em mim, mas hoje, folheando um esporádico diário que escrevo, achei um texto escrito na primeira semana-santa soteropolitana da minha vida.

Em 13/04/2007, refleti, sob os auspícios de Baco (porque depois de intensa vivência com o mundo delas, só um vinho pra me ajudar a desvelar aquilo tudo dentro de mim), sobre o que representava a vitalidade daquelas arqui-mulheres na minha vida. A vida delas, sem dúvida perto do fim, proporciona que eu ligue as pontas todas dos tempos que me constituem: desde antes de eu nascer até depois de eu desaparecer.

Tais quais os mitológicos personagens de Guimarães Rosa, minhas lindas tias vivinhas da silva guardam uma alegria de viver, uma lucidez e uma fé, no mais profundo sentido que essa palavra possa ter, que é de cansar qualquer jovem que se sente ao lado delas para escutar suas saborosas histórias, exaustivamente repetidas, né? Normal... Mas sempre, no meio da repetição de histórias d´antes, vem um personagem novo que eu não conhecia ou uma faceta nova de personagens já conhecidos.

Nessa sexta mesmo, descobri que meu avô já trabalhou voando. Bem novinho, era radiotelegrafista de bordo e orientava o piloto bem ao lado dele, ali da cabine. Isso ele nunca tinha me contado. Lelinho me contava heróicas histórias do trabalho dele em terra, explicando como orientava, a partir dos tipos de ventos e de outros fenômenos metereológicos, os pilotos a saírem de enrascadas que poderiam levar a sérios acidentes. Ele de fato entendia os mistérios dos aviões e sua voz traduzia um verdadeiro amor pela aviação. Pois foi a pedido de sua mãe, Dedé, que meu avôzinho parou de voar, ainda bem jovem. Nossa... uma mente que ama imaginar o não acontecido como a minha, já me levou a pensar quão mais audacioso seria meu avô se tivesse continuado a furar céus, voando nessas enormes aeronaves por aí.

Sem as inspiradas versões de minhas tias, jamais tomaria conhecimento disso e de outras histórias da minha família. Elas são o contraponto do meu avô, porque, se ele dourava a pílula e mostrava um mundo só de encantamento, elas me contam as mesmas passagens por outras perspectivas e vão logo dizendo. "Seu avô, ah, pra ele tudo era bonito e perfeito, Fafá, mas papai não era mole não... mulherengo que só ele". "Dedé, nossa mãe, era ótima! Mas não queria que suas filhas se casassem. Não é porque ela tinha sido infeliz no casamento que nós seríamos, né? Não entra nessa não, viu, Fafá, se case!" Por esse senso de realidade, minha visão delas mudou radicalmente. Antes de vir para Salvador e ficar mais próxima do mundo ultra-contemporâneo delas, minhas tias se resumiam a ser as carolas da família. Aquelas mulheres que se refugiaram na fé católica por medo da vida, dos encantos sensuais ou eróticos que nos fazem queimar, para o bem e para o mal.

Ledo engano meu! A fé dá não só sentido, como lucidez e erotismo a suas vidas. Quando falam em homens do passado ou do presente mesmo, os olhos delas vibram e eu vibro por dentro, por ver que estão vivas e que sentem prazer, um amor pela vida que as levam a não querer ir embora deste mundo. Ah, esqueci de dizer, Tia Bubu tem 94 anos (é a mais velha de todos os filhos de Dédé e Phillipe) e Tia Zelina completará 91 agora no proximo 27, apenas 3 dias após o meu aniversário (só para avisar aos leitores daqui, ta?). Vale contar, em separado, fragmentos da história de cada uma, porque é da riqueza da trajetória de minhas velhas tias pretas que eu bebo água benta e purifico meu corpo...



Tia Zelina foi a mulher desbravadora da família. Uma perspicaz aluna que fez parte do grupo das dez melhores notas de uma importante escola normal de Salvador. Os estudos dela foram custeados pelo meu avô, que na época, já trabalhava, e alugou uma casa na capital, pois seria pouco prática a vinda diária da Ilha (de Itaparica) pra cá. Tia Zelina foi professora num tempo em que era necessário ir a lugares pouco habitados do norte e nordeste do país. Embrenhou-se por terras indígenas da Amazônia. Num desses lugares, ela conta, decidiu voltar para Itaparica 6 meses depois, pois sofria com saudades da sua terra e família. Alunos-garimpeiros ofereceram fortuna em ouro e diamante, para que ela não fosse embora. Sempre que acaba de contar essa história, ela diz: "Nós poderíamos ser milionárias hoje, Fafá! Mas eu não aceitei." No meio de suas histórias de viagem, ela demonstra certo arrependimento por não ter tido coragem de continuar viajando, descobrindo mundos diferentes dos seus. Suas histórias são uma maneira de se rever, já no fim da vida, refletindo sobre o que sabe que não poderá mais fazer.

Tia Zelina gosta tanto da vida que o que mais a angustia, mesmo com toda fé que tem no Santíssimo, é a proximidade da morte. Isso ultimamente a tem deixado sem sono, mas perder a lucidez, ela não perde não. Agora, essa tristeza toda vai embora, quando a casa se enche de gente e a festa começa: são vizinhos entrando e saindo, padre que reza para Nossa Senhora lá, benze a casa e depois todos da comitiva religiosa se fartam com delicioso café da manhã, é gente passando para vender peixe, beiju, ex-alunas que ligam.

Aniversário naquela casa tem que ser comemorado com bolo bonito, todo confeitado e em forma de coração. Nos seus 90 anos, a casa se encheu de ex-alunas-afilhadas do Baiacu (uma região da Ilha de Itaparica). Hoje as antigas menininhas são avós ou bisavós que ainda guardam profundo amor e respeito por aquela mulher preta e distinta que lhes ensinou as primeiras letras. A foto a seguir, mostrandoTia Zelina rodeada por suas eternas alunas, me leva a entender que minha função hoje, como professora, faz parte de uma linhagem de resistência que se estende, pelo menos, desde a década de 30 do século XX.



Tia Bubu é outra coisa, complementa o lado ansioso de Tia Zelina, mas ela é melhor que todo mundo. Pra mim, ela representa tudo o que eu jamais poderia ser: desde o desprendimento para cuidar dos outros, a bondade extrema até a virgindade. É isso mesmo, gente! Minha tia sairá deste mundo talvez sem ter sequer se aproximado da boca de um homem (nem falo de mulher, porque isso ela jamais consideraria). Mas, entendam, o moralismo passa longe dessa mulher criada para ficar em casa, para ser aquela que cuida dos outros porque é assim que tem que ser. Na última sexta-feira, emocionada fiquei, quando soube que foi ela quem cuidou do meu bisavô Phillipe quando ele já se encontrava nas últimas. Na hora de dar banho, ele ficava muito incomodado e dizia: "Quem tinha que fazer isso era meu filho homem". Ela rapidamente respondia: "Mas ele não está aqui. Mora longe. E de mais a mais eu sou sua filha. Deixa de besteira!!!!"

Seu nome, Áurea, eu não sei por quem foi dado, mas com certeza foi alguém com ares de feiticeiro para saber que a personalidade dessa mulher seria de ouro mesmo. Ao contrário de sua irmã docemente ranzinza, Buba gosta de tudo que dá prazer (doces, comida boa e, pasmem, piadinhas de sacanagem, depois das quais vemos ecoar sua forte gargalhada pela casa a fora). Mandou uma sacanagenzinha, ela capta na hora, mesmo com ouvidos que não ajudam mais tanto assim. Quem chegar com bala, ela vai logo aceitando, às vezes escondida da irmã, sempre preocupada com o nível de açúcar no sangue, com a alteração de pressão. Tia Bubu quer mais é viver sem reclamar e aproveitar feliz o tempo que resta por aqui. Por isso, quando Tia Zelina começa suas reclamações sem fim, ela vai logo cortando: "Vamos parar com isso, minha gente! Podemos viver sem reclamar. O sofrimento fica pra trás." Tia Zelina geralmente obedece, mesmo que a contragosto.

A minha alta gargalhada é de Buba com certeza. O meu "gente", arremedado por tantos amigos, é dela com certeza, essas memórias atávicas que se cravam na gente, sabe? Mesmo tendo crescido longe delas, nossa linguagem tem muito em comum. Ah, já ia me esquecendo, mas meu nariz também é de Buba, assim como o de minha mãe, do meu irmão Felipe (esse com outra grafia), de Morena e de João. Todos nós ligados assim... desde a mulher de ouro! Pra mim, é um conforto saber que eu me estendo para antes do meu corpo se constituir como tal em duas vívidas mulheres negras.



Para terminar, parafraseio toscamente - como é bom poder ser tosca aqui, meu deus!- Clarice Lispector e Elisa Lucinda, usando a 2a. pessoa do plural, em sinal de respeito por aquelas que vieram muito antes de mim e continuam por aqui, me dando o privilégio de conhecer grande parte da matéria de que sou feita.

Tia Zelina e Tia Bubu, eu vos amo! Diariamente morro por vosso perfume, aquela lavanda de depois do banho das 18:00, aquele talco perfumado à velhice boa, das mulheres tomadas banho de todas as nossas famílias pretas por aí...



Série SOULSISTA

domingo, 5 de abril de 2009

NÃO CHOREM POR JÔNATAS CONCEIÇÃO

(1952-2009)

Em homenagem ao poeta, professor, radialista e ativista, dois poemas de sua lavra e o emocionado e lúcido texto de Simone de Jesus Santos (Mestranda do Programa de Estudos Étnicos e Africanos - UFBA), cujo título peguei emprestado para nomear esta postagem-memorial, dedicada à infinitude de todo lutador de palavras.

A PEQUENA CEIA
(fragmento final)

Dona Magnólia de Araújo,
sinto-me solidário com o teu ofício de badameira.
A tua arte e sabedoria
de sobreviver à custa do lixo
dão-me força para continuar,
solitário, à cata de palavras que
quisera fartas, purificadoras e anunciadoras
dum porvir de
mel
luzes
boas merluzas e dignidades para todos.

- Uma farta e perene Ceia, Dona Magnólia!

(Cadernos Negros, 29)

JOÃO SALDANHA

A sanha dos opressores de plantão
não pôde calar o teu verbo.
Foste sempre o dono da bola
desde que saíste de Pelotas
para encher de fantasia
tanto o torcedor da geral como o intelectual.

Este poema que queria redondo
vai aqui com versos quebrados
branco querido, que soube como ninguém
traduzir a arte dos pés negros
e elevá-la ao Olimpo dos mais humildes.

Caro poeta da oralidade
pelas ondas do rádio, o esporte bretão
invadiu a área do nosso coração
com o vigor e a sabedoria de sua arte de comentar
homens e bola em apenas quatro linhas.

(Cadernos Negros, 29)

Não chorem por Oliveira. Os escritores não morrem... assim disse o velho militante Jônatas Conceição em homenagem ao poeta Oliveira Silveira, na edição nº 24 do jornal Irohin.


A mensagem deixada por Jônatas não cessa a tristeza diante de nossa irreparável perda, entretanto, contribui para as lutas de todos os afrobrasileiros. Sua caminhada de militante, poeta, professor e diretor do bloco Ilê Aiyê não termina no dia 02/04/2009 porque a sua escrita há de ser perene. Para além dos Quilombos Contemporâneos dos quais participou, pode ser pensada a sua vivência de afrobrasileiro.


Quem o conheceu sabe que fez de suas marcas caminhos um Quilombo de palavras: afrodescendência, Literatura Negra, Movimento Negro, são alguns vocábulos constantes no seu discurso. No mesmo perfil de força, calma e doçura integram o jeito tranqüilo daquele a quem disse ser “poeta da memória”.


Para Jônatas, a sua geração de 1970 é significativa no processo de construção de uma sociedade mais democrática para os afro-brasileiros.O seu empenho é um importante legado em nossos dias. Seu trabalho vivo fortalece as identidades afrobrasileiras e coincide com o propósito de Zumbi[...] Senhor dos caminhos: liberdade, liberdade, liberdade. Com essa imagem que Jônatas nos transmitiu, no último 02/04, tornou-se eterno porque os escritores não morrem.





sábado, 4 de abril de 2009

AINDA CORPO... E BESTEIRAS

Como quero escrever, mas esvaziar todo o pensamento que sobrou da minha mente. Pensar pra quê, né, gente? Ainda vale se extasiar de beleza com a dança. Segue-se à elétrica coerografia do espetáculo "O corpo", cujo fragmento encontra-se na postagem anterior, a brejeirice de "Nazareth" (eu tocava feliz "Brejeiro" de Ernesto Nazareth, o compositor que inspira esta coreografia), só para lembrarmos que, para além da dor, há muito , muito mais que o Cabo do Bojador. Há corpos lúdicos a nos mostrar eros em plenitude de potência! êêêêêiiiaaaaaa - e viva o non-sense das palavras, que também serve pra muita coisa! EXU fecha, mas também abre caminhos!!!!! Vou parar por aqui, porque vocês, cara(o)s leitora(e)s, não merecem me escutar mais não!!!!!!



quinta-feira, 2 de abril de 2009

BENDITO OS CORPOS QUE SE MOVIMENTAM

Dançando muito
Dançando solto
Dançando bem diferente
Dançando curto
Dançando torto
Jogando o corpo pra frente
Dançando estranho
Dançando lindo
Dançando muito contente
Dançando funk
Dançando samba
Dançando diversamente

(Dançando - de Péricles Cavalcanti cantada loucamente por Adriana Calcanhoto)


Graças a Kátia (blog webneguinha), meu dia está terminando leve, depois de um início... nem tão leve assim. Há tempos atrás ela colocou em seu blog um vídeo do Grupo Corpo e falou da alegria gorda de assistir ao DVD de 30 anos da companhia (na verdade, lembro muito não, ela pode ter feito referência a outro DVD do grupo). Desde então, comecei a tentar fazer download de alguns espetáculos a que assisti extasiada há anos atrás.

Depois de alguns dias, devido à conhecida lerdeza da minha conexão com a internet, consegui ter dentro do meu computador os 44 minutos da coreografia "O corpo", com música de Arnaldo Antunes. Todavia, só hoje, depois de um dia exaustivo, com o corpo doído, resolvi, para relaxar, assistir àqueles leves corpos que brincam de tornar movimentos dificílimos em saudáveis brincadeiras.

Vendo o lúdico espetáculo, me lembrei que a dança me paralisa. Embora ame mexer meu corpo, falo aqui de assistir a outros corpos em ritmo regular fazendo movimentos. Ver uma bela dança me deixa meio que hipnotizada e eu não consigo deixar de olhar. Às vezes isso chega a ser constrangedor, porque se estou em uma festa, num show ou em qualquer lugar onde as pessoas dancem e vejo alguém mexendo o corpo com certa graça, fico olhando e, mesmo quando não quero mais ou quando racionalmente sei que a minha observação está quase invasiva... continuo a olhar!

Outro dia mesmo, estava com uma amiga no "Balcão cheio de assunto" aqui em Salvador (esse lugar é papo pra outro texto), quando pedi a ela que observasse bem os três caras a nossa frente, porque eles iam dançar muuuuuito. A primeira vez que os vi, dançando em trio, fiquei no estado palerma que antes descrevi. Lindamente, eles acompanhavam as músicas e, em meio a certa malandragem, exibiam seus belos corpos saradíssimos. O do meio, com uma enorme juba crespa solta, parecia ser o líder do trio, comandando os outros dois. Sem dúvida, ele era o que balançava melhor o corpo, movimentando-se com extrema facilidade. Liiiindoooo!!!

Só que no dia em que os mostrei à minha amiga, eles não estavam a fim de dançar. Uma hora ensaiaram começar, mas logo pararam, para meu descontentamento. Saí de lá decepcionada por não ter podido cansar de olhar estática para o trio de dançarinos.

Na década de 90, quando me tornei platéia assídua do grupo Corpo, o que mais impressionava a mim e a meu companheiro de espetáculos de dança, meu querido amigo Wilson, era o fato de a gente ter a sensação de poder fazer aqueles movimentos. Apesar de sofisticadíssimos, a maneira de os dançarinos mexerem o corpo era-nos familiar. Além disso, havia uma espécie de sincronia dissincronizada, ou seja, embora todos os corpos dançantes formassem uma companhia de dança, dava pra gente observar determinadas singularidades físicas e de movimentação de cada bailarino. A perfeição ali não estava tanto na uniformidade precisa dos movimentos, como nos espetáculos de ballet clássico, mas no destaque, dentro do grupão, da beleza de cada corpo em separado.

Nazareth, O corpo, Benguelê, Santagustin, 21, entre tantos outros espetáculos! Quantas vezes saímos do Theatro Municipal do RJ tentando imitar os movimentos vistos no palco, mesmo sabendo que não chegávamos nem perto da acrobática cambalhota ou do fantástico pade-deux?

Então, cara leitora ou leitor, tente você também, é mesmo possível que se aproxime do dinâmico jogo que eles brincam corporalmente. Convido-a(o) a pelo menos tentar... Nem que seja o fácil movimento de robô ou a cambalhota pra trááááááááááááááááááás e... pra freeeeeeeeeeeeeeeeente! Enjoy it!


quinta-feira, 26 de março de 2009

Paulo Diniz e memórias em lá menor


Das escalas musicais, as que mais me chamam atenção, me tocam por dentro, são as menores. Não sei bem por quê, mas se gosto muito de uma música e sinto uma avassaladora dor que não sei da onde veio, podes crer... Ela foi feita em escala menor.

No início da adolescência, inclusive, a música que primeiro toquei ao piano com um profundo sentimento foi "Norturno da Lua", de Mark Nevin. Com uma levadinha de jazz, acordes fáceis e ritmo quebrado, sincopado talvez, lembro que foi a primeira peça musical que me levou a fruir a melodia, adentrando, com todo o meu corpo, no mundo hamonicamente melancólico criado, em tom menor,pelo autor.

Com o tempo, acabei estendendo a escala menor, na minha linguagem pessoal (nem sei, mas acho que todo mundo tem uma: expressões, palavras ou frases usadas demais quando pensamos conosco mesmas), tudo o que é melancolia estética. Então se alguma letra, poesia, conto, romance, filme me leva a espaços sombrios de mim, logo classifico como escala menor. Uso freqüentemente, nas conversas de mim comigo, a mais comum: lá menor. Mas, entendam, não vejo aqui o lá menor como uma tristeza que afunda, levando-me a zonas ainda mais sombrias e sem saída. Falo de uma tristeza bela, uma dor tão radical, que acaba por ser até transformadora. Sentir-se tocado pela melancolia, através da música, de qualquer outro tipo de obra de arte, ou até mesmo da própria vida, é uma experiência de beleza, pelo menos para mim.


Pois então, gente, hoje tive um delicioso almoço em lá menor. Sentada no segundo andar do bar Líder, fiquei a vislumbrar, em rememoração, caminhos por mim passados e repassados nos últimos dois anos . Bem à minha frente, o casarão verde, sede do meu curso de doutorado. Ali num momento de dor em meio à possibilidade de deixar de ver aquele vai e vem do Largo Dois de Julho, obviamente, o verde da construção ganhou cargas simbólicas múltiplas. Como minha vida mudou de dois anos para cá! Tantos novos caminhos a trilhar, para muito além da Baía de Todos os Santos, quantos novos mundos se abriram em mim, mostrando-me morar em minhas entranhas o infinito... Isso, é verdade, já desconfiava antes, mas agora encaro numa boa o caos sem ter medo desse fim sem fim, dessa imaginação caótica de algo que não acaba nunca.


Como a tarde estava muito quente, pedi água mineral. Cinco minutos depois, para relaxar, uma cerveja latinha (pelo menos na minha cabeça, já que estava sozinha), mas o garçom entendeu garrafa. Deixei... Com certeza não tinha parado à toa aquela garrafa ali. Depois do almoço propriamente dito, passei a saborear aquela gelada e o cotidiano azoado e acolhedor do Dois de Julho. Pessoas de fisionomia conhecida, muitas crianças correndo ou voltando da escola. Último copo, cerveja acabando, escuto, no rádio do Líder, uma voz conhecida: "O meu amor choroooooooooou/ Não sei por que razão/ O meu amor chorooooooooou/ Não sei por que razão...".


Nossa, dentre os discos do meu pai, aos oito ou dez anos, uns dos que eu mais gostava eram os de Paulo Diniz. Ficava horas escutando aqueles álbuns cujas músicas só falavam de pessoas que iam embora ou questionavam sobre a existência, a partir de uma voz dramaticamente rouca. Ao escutar hoje a canção de Diniz, fiquei pensando o que tornava suas músicas lá menor, embora todas possam ter sido feitas em escala maior (na verdade, não sei que tons ele usa em cada uma das canções, e isso pouco imorta). Para os meus ouvidos, o tom melancolicamente menor é flagrande em álbuns como Estradas ou Quando voltar pra Bahia.


Não interessa, seja em músicas tradicionalmente infantis (Como pode o peixe vivo/ Viver fora d´água friiiaa/ Como poderei viveeeer/ Como poderei viveeer/ Sem a sua, sem a sua, sem a sua companhia...), em canções de amor perdido (Choreeeeei de amor eu seeeei/ Um choppeeeeeee pra distrair...), em letras cuja mácula é o non-sense (Ponha um arco-íris na sua moringaaaaaa/ Ai ai ai aaaai) ou o bastante cantado desejo nordestino de voltar pra casa, depois de passar por agruras no Sul Maravilha do Brasil (I don´t want to stay heeeere/ I wanna to go back to Bahia), (Eu vim de piripiriii, eu vim de piriperiii/ eu vim de piripiriii, de piripiri de piripiriiiiiiiii), o tom menor corta afiado a voz do cantor que, hoje em dia, anda bem sumido. Outro dia li no jornal A Tarde uma entrevista com ele. A jornalista informou que não havia fotos, porque ele não queria aparecer doente, vaidoso que era. Respeitemo-lo então...


As melodias dele são tão tocantes, que fez meu pai, certo dia classificar-me como uma menina de "alma anciã", muito mais velha que a dele própria, porque, em uma de nossas viagens de carro para Salvador, dentre as inúmeras fitas que levávamos, sempre sacava as de Diniz e cantava alto junto com ele as sombrias cóleras da existência humana - como diz outro poeta daqui do nordeste, "existirmos a que será que se destina?..."


Na tarde pelando do outono de cá, a escala lá menor adentrou a minha vida, fez-me recordar passagens muito alegres do meu passado próximo, encher os olhos de lágrimas ao escutar o canto de Paulo Diniz e, no fim da tarde belamente triste, decidir melancolericamente continuar firme no meu caminho de ir além, muito além da Baía de Todos os Santos!


Lembrei agora no arremate deste texto que um namorado de alguns anos atrás dizia que eu tinha uma tristeza lírica ou uma beleza triste. Tudo bem, ele era poeta e devia ver lirismo e trocadilho de sentidos em tudo, né? Mas que há beleza libertadora na melancolia, há!